sábado, 15 de novembro de 2008

Confidências de Amandra - 2

(foto:Iga - Gallerygalore.net)

A piada falava de gente magra e sexo. Esqueci, podia também ter esquecido do professor, mas ele depois me pediu desculpas. Desculpei a piada, não o professor. Também não queria vingança, pelo menos não era esse o meu sentimento naquele momento. Sentia mesmo era enraizar uma obsessão: tinha de conquistar sua atenção para comigo. Não é comum, certo, uma menina de treze anos articular estratégias tão perfeitas para conseguir o que quer. Mas, primeiro eu não era uma menina comum; depois, os planos, apesar de bem pensados, encontravam resistência na ética profissional do professor, na possível ressaca de uma aventura indecorosa, o que mancharia para sempre seu currículo de jovem intelectual dotado. Devo dizer que ele era bem querido pela administração da escola, seu futuro ali era de um bom investidor.
.
Mas o possível é uma brecha, mesmo apertada, no destino. É preciso saber entrar, forçar prazerosamente, como se come cuidadosamente uma virgem. Evitar o caminho de cascalhos à beira de um abismo. Se não der certo, parte para o plano b, plano c, d,... Aí, depende do tamanho do tempo, da disposição ou da loucura da pessoa. Louca eu nunca fui e tempo... bem, o tempo, eu hoje já sou adulta. Eu tinha um álibi natural e coercitivo: o corpo. Enquanto a mente mapeava os caminhos geométricos da disciplina, meu corpo exercia a função estética da indisciplina. A mulher sabe usar o corpo para chegar a um determinado fim. Adolescente, jovem ou adulta. Você deve estar perguntando: mas um corpo magricela e adolescente... Sim, eu sabia que tava na hora de mudar meu corpo, inflar nas curvas, encher os seios, turbinar as nádegas. Como fiz? Aos quatorze anos uma adolescente magra, se quiser, fica gorda, e uma gorda pode ficar magra. Ou ainda podem ficar na perfeição física. Se estudei medicina? Depois eu falo o que estudei e o que sou hoje. Mas lhe digo por que esse fenômeno acontece com as adolescentes: os hormônios, a menstruação, os pêlos, o desejo sexual, a curiosidade pelas artes, a repugnância por determinadas comidas.
.
Esperei os quatorze anos chegarem, já estudava a oitava série, quando as meninas adoram mostrar o rabo, as que têm, claro. As alunas nessa série preferem professoras a professores, elas bonitas. Professora de escola sempre foi modelo de mistificação, e entre as meninas era motivo de imitação. Entre os meninos a professora era a modelo preferida no banheiro – a idade dos otários. A professora Romana era uma poesia disciplinada, mas uma moral tradicional que não rejeitava a modernidade. Olha, essa certeza de dizer que adolescente da oitava série preferir professora é observação minha, você já leu meu livro Alunos e Alunas Modernos? Não, né! Nesse livro eu abordo essa questão da preferência do alunado pelo profissional do sexo feminino em sala de aula. Mas isso é outra coisa.
.
Como eu falava, a professora Romana lecionava português, adorava poesia clássica, e reconstruía seu mundo barroco com os tijolos dos escombros das vanguardas. Como? Olha, o senhor pode tolerar algumas sílabas do meu vocabulário poético? Ah, o espaço para a diagramação do seu jornal, entendo...

Nenhum comentário: