terça-feira, 31 de agosto de 2010

Entrevista

(Ferreira Gullar - imagem: MEC)

Ferreira Gullar e a poesia

Revista História: Trabalha em algum poema neste momento?

Ferreira Gullar: Eu devo publicar um livro de poesias este ano. Mas preciso dizer: Não trabalho em poesia. Isso não se faz por vontade. Poesia é uma coisa que as circunstâncias determinam. Eu não posso decidir escrever um poema hoje à tarde. Não vai acontecer. O poema, pelo menos no meu caso, nasce de um espanto, de uma descoberta inesperada. Às vezes, fico um ano intero sem escrever sequer um poema. Então preciso dar tempo ao tempo até ter certeza de que o livro já tem um número suficiente de poemas ou de que o que ele expressa está de fato concluído. Por isso quando me perguntam se  sou o poeta Ferreira Gullar, eu respondo: “Às vezes.”

Revista História: A poesia tem alguma finalidade?
Ferreira Gullar: Claro!, Para início de conversa, a poesia é uma coisa necessária para quem faz e para quem lê. Seria fora de propósito que se fizesse alguma atividade humana desnecessária. As coisas são realizadas porque são necessárias de alguma maneira. O número de pessoas que se interessam por poesia evidentemente não é o mesmo daquelas que gostam de futebol, mas tem um público que precisa de poesia. O meu Poema Sujo (1976) é paradigmático neste sentido.

Revista História: Como assim?

Ferreira Gullar: Eu terminei de escrever o Poema Sujo no exílio, na Argentina. Por que o Vinícius de Moraes trouxe o poema gravado para o Brasil? Por que o Augusto Boal insistiu para que o Vinícius me obrigasse a ler o poema? Ora, porque comovia as pessoas. O próprio Vinícius ficou com o olho cheio d’água quando o leu pela primeira vez. No dia seguinte ele já voltaria para o Brasil. Nós demos um jeito e fizemos a gravação. Se não prestasse, iam achar que ele estava louco. Só que as pessoas se apaixonaram pelo poema. Caso contrário ele não aconteceria. Não existe amigo, nem decreto presidencial, nem instituição alguma que faça sobreviver uma coisa que não interessa às pessoas. É so isso. A poesia se mantém porque nos toca e se faz necessária na vida das pessoas. Agora, quando não presta, não presta. E aí não há milagre.

(...)

Trecho da entrevista publicada na Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 5, Nº 59, Agosto 2010.

Conto

( imagem - web )

Airton Sampaio

... AUTOMÓVEIS E AUTOMÓVEIS E AUTOMÓVEIS!

Desde criança, nos idos de 1910 isso, aquela porta fechada a sete chaves, e a proibição, antiga: que nunca se tente nem sequer abri-la.
“Mistério, meu filho, o que há aí, por trás. E com mistério não se brinca.”
“Ninguém nunca tentou abrir ela, mãe?”
“Não, filho, nunca. Desde o tempo de seu tataravô. E assim deve continuar. Com mistério não se brinca.” 
Agora estou muito velho para temer alguma coisa e nem a desculpa de que me faltava a sétima chave posso arguir, que há muito a possuo. Por que não girá-la de uma vez, mesmo assim tão trêmula a mão? Giro... Empurro-a... Um jato de luz me cega. Aos poucos, porém, vejo. Desço a escada em espiral. Atravesso, sob penumbra, o enorme corredor. Subo, cansadissimo, a escada em espiral. Às minhas costas, o Poti; à frente, muitos prédios, altos prédios, que em Teresina não há. Onde, meu Deus, onde eu estou?
“Sim, mãe, com mistério não se brinca.”
“Então se esqueça de vez dessa porta fechada, filho.”
Quando quis voltar, nada atrás de si, senão...

Do blog confraria tarântula

sábado, 28 de agosto de 2010

Poesia de todo dia

Duelo II


Entre frincha da janela
um olho treme
testemunha a noite fria

Entre estatuetas e molduras de santos
lamparina bruxuleando
mãos cansadas executam o terço

Na porta da sala:
-- Sai daí, homem de Deus.
-- Vai dormir, mulher do diabo.

Um tiro soa na noite
Outro...
(de misericórdia?)

E o silêncio
tomba no vazio.


F Wilson

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A filosofia da garrafa

(foto: f wilson)

Artigo Indefinido - Uma túnica de várias cores

 

“Todo homem está duas doses abaixo do normal” - Humphey Bogart

A fofoca é de Johnson: na Irlanda, quem não dá bebida, não recebe visita.

Primeiro, o homem bebe vinho, depois, o vinho bebe vinho; depois, o vinho bebe o homem. (provérbio Japonês)

“A verdadeira noite escura da humanidade são sempre três horas da madrugada.” (Scott Fitzgerald)

Quem toma bar errado chega em casa mais cedo.

Quem bebe depressa, chega tarde.

O pior bêbado é o que tem razão pra beber.


Em: O Diário da Tarde - Paulo Mendes Campos. Civilização Brasileira, SP, 1981.

domingo, 22 de agosto de 2010

Mark Knopfler - Brothers in Arms

Eleições 2010

(imagem - TRE)

Ver Airton Sampaio Blog

QUE DUPLAS...
 
WD e Rejane Dias...
WM e Lílian Martins...
Ciro Nogueira e Iracema Portela...
Morais Souza Filho e Juliana Morais Souza... Aguenta, Fazenda Piauí!

sábado, 21 de agosto de 2010

Tempo de poesia

(imagem - google)

Passado

Passei horas examinando
Fotografias
Avós, tios, primos
Prisioneiros da moldura
Proprietários da altura
Esquadrinhando com olhares
Meus gestos
Vento visitante

Passei horas cumprimentando
Aquelas gerações
Entre abraços, conversas, sorrisos
Conselho na moldura
Exemplos na altura
Piscando no olhar
Para nada eu dizer
Deles visitantes


F Wilson

A poesia é necessária

(foto web - autor e modelo desconhecidos)

Dia desses, uma amiga me perguntou se eu conhecia algum poema que descrevesse uma mulher de cinquenta. Falei para ela que mulher não tinha idade. Obrigado pelo cavalheirismo, mas eu perguntei se você pode me achar uma poesia descrevendo a mulher de cinquenta, replicou ela.
Esqueci do pedido da amiga, não faz um ano. Dia desses, visitando um blog musical encontrei uma poesia que pensei na amiga. Copiei o texto mas esqueci de anotar o nome do blog - de um cara que conhece muita música. No final  esse blogueiro (desconhecido) faz um pequeno comentário da sua vivência  jovial com a autora.

MULHER DE 50

Mulher de 50 é assim:
100% mulher.
Porque ela sabe que já não há mais
50% da vida.
Vivida mais que a metade
embora perdure a vontade
de outros 50 ainda ter
sabe que na verdade
mais 50 é bobagem prever.
Mas nem por isso há de viver
se esgueirando na saudade
de sua época de menina em flor.
Muito mais do que isso
ela sabe que ainda é dada ao amor
e agora, mais sabida,
esquece da ruga de dor
e se abre num sorriso
a estampar-lhe um doce sabor.
Se já conheceu 50% da vida
sabe que não há mais hora pra fita
deixa de lado as bobagens
e traz o vento a seu favor.
É, afinal, uma mulher de 50.
50% menina
50% ferida
outros 50 felina
50% em botão
50% desabrochada
numa janela pendurada
tal qual dália debruçada
em floreira despojada.
Mas nem por isso se sente arrancada,
ao contrário, se posta bem ajeitada
à visita alvissareira,
que sem saber a exatidão de seus 50,
vê nela uma mulher inteira.
E ela quase a perder a lucidez
se esquece de uma só vez
dos seus 50% da mais pura flacidez.
Mas nem por isso mostra em sua tez,
que esconde na palidez,
alguma vergonha ou rubor,
porque pudor, serve pra quê?
se na sua inteligência
não cabe a negligência
de que uma mulher de 50
tem muito fogo nas ventas.

Malu Savino

"Malu Savino. Por conta de minha atividade profissional encontrei dia destes com a professora Luciana. Ela mora em Suzano-SP, e é Mestra em Semiótica. Atualmente leciona no Estado e em uma univercidade particular. Começou seus escritos com o pseudônimo de Clara Maria Salumã e mais recentemente assumiu sua verdadeira identidade. É pessoa de grande carisma e cultura maior ainda. Seus textos são bem contemporâneos e cheios de emoção. De capa na postagem deixo um deles, mas vocês podem baixar mais alguns e curtir muito. Se alguém quiser falar com ela (pode crer que vai gostar muito), pode escrever para malusavino@superig.com.br."

 
F Wilson
 

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Erótica

(imagem - web)

Sexus
 
Sinto que a emoção sopra no buraco da sorte
em busca do momento perfeito
mais rápido do que o cruzar de pernas
no sorriso da calcinha

Lembro da Amanda,
vida via dourada
namorada apaixonado do vento a empoeirar
gramas de beleza pela rua
(quem era eu a persegui-la
na tentativa
de colher um fio perdido do seu cabelo)
era 1975
dez anos
antes
trancinha era seu cabelo de menina
que se desfez em transa
penugem feminina
relva abrindo em flor
orvalho em dia de calor

canal do tempo
tela corpo belo
pele branca
buceta preta
corte aberto
hora incerta
sexo quente
goza lento
cospe dentro
 

me’spe...ra...
anda...sua puta!
 

Amanda correndo
suculenta
grito puro:
me’spe...ra...

outra volta
no teu corpo Amanda
qual descompasso avança
sobre coração emocionado?
extremidades exterminam razão
na superfície da tua pele
dez pontas de dedos
mergulham no desejo
fagulhas que tu chamas
quantos quilômetros de pêlos
hei de atravessar
quantos dias quantas noites
em tua perseguição
para jorrar dez milhões de esperma
dentro do teu útero divino

a vida solavanca nesses rios
onde nossas veias se encontram
amor, sexo, amor, sexo, amor, sexo...

pre...
        enche
pre...
        nhe

fornalha
úmida

côn cavo
        con vexo
côn cavo
        con vexo
côn cavo
        con vexo
côn c...
....... ahhhhhh!


me'spe...ra...
anda...sua puta!


Amanda, onde estás?
o tempo voraz lambeu
o doce que tinhas na pele
e o perfume do desejo
secou nas pétalas de uma flor
socada entre tantas páginas
dos contos pôrnos do Henry Miller
ensurdecidos dos teus gemidos
engessados de tantas quedas
jogados da cama enlouquecida.

F Wilson

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Conto

(imagem - web)

Por J. L. Rocha do Nascimento

A LEITORA
 
Foi intenso. Começou quando ele faz conjecturas acerca da cor dos seios e o efeito da luz fosca incidindo sobre eles. Na cena do beijo, meus lábios já se sentiram mordidos. Senti-me como ela, enredada numa teia de desejos e fantasias. Ondas de calor começaram a atravessar meu corpo, da cabeça aos pés. Incendiei-me. Nunca ficara tão excitada assim. Antes, apenas a música do Chico tinha essa força. Quando ele descreve o momento em que ela se mostra como veio ao mundo, a freqüência entre as contrações aumentou. Impressionante as semelhanças. A cor da pele, a expressão dos olhos, as ancas generosas denunciando o sangue negro, o tamanho dos seios, nem tanto, mas os meus também são morenos e suas extremidades ficaram enrugadas quando ele os toca levemente com a ponta da língua para depois envolvê-los por completo, como quem leva à boca uma manga-de-bico, e, em seguida, passa a degustá-los sem nenhuma pressa.
Mas nada se compara com o momento em que, com as pontas dos dedos, com as mãos e com os olhos, ele troteia ao longo do corpo nu e estendido.
Quando me toquei, percebi que estava molhada, mais que isso, um rio que descia lentamente azeitava minhas pernas.
E quando finalmente veio a cena da espada de fogo e de como ela rasga aquele ventre, a minha vontade foi a de entregar-me incondicionalmente. De ser golpeada. De ser aquela personagem.

 
Texto extraído do blog confraria tarântula. Lá postado na quarta-feira, 11 de agosto de 2010.

domingo, 15 de agosto de 2010

Ferreira Gullar

(Ferreira Gullar, trinta anos atrás, após o exílio - foto de autor não identificado)

"A arte existe porque a vida não basta"

POEMA SUJO

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu

tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta.
(...)

Do livro "Poema Sujo".

A arte do cartum




(caricatura de Ricardo Soares)

O amigo Leonam, no blog "Vida Noves Fora Zero",sugere aos leitores visita ao blog do cartunista Ricardo Soares.  Eu que sou apaixonado pela arte da caricatura, me encantei, mas também fiquei revoltado, tardiamente, pela atitude ditatorial do prefeito de Teresina, que deixou o cargo para se candidatar a governador desse estado aflito.
Só agora lamento não ter visitado as ricas estantes artísticas que sempre frequentava todos os anos, e que ano passado não visitei, nem este ano de conquistas. Neste ano visto no mês de junho. 
Mas nunca é tarde para mostrar a cara dos gestores que não se importam com o espírito da arte, interpretada como finalidade da educação voltada para a reflexão e para a crítica social.
Basta um livre olhar de qualquer pessoa crítica para se deixar atrair pelos traços inteligentes do cartunista.  



"O Albert, presidente do Salão Intern. De Humor do Piaui ajudando na montagem da minha exposição após atitude inexplicável do prefeito de Teresina de mandar retirar e apreender a mesma exposição que havia sido montada na avenida principal da cidade.". (Comentário do artista).
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Repressão à expressão artística!...
(Caricatura do insuperável escritor irlandês James Joyce)

(o cartunista Ricardo Soares)
"Foi grande a minha surpresa ao desembarcar em Teresina para acompanhar minha exposição, no 26 Salão Internacional de Humor do Piaui! O prefeito Silvio Mendes numa atitude arbitrária e inexplicável mandou recolher minha exposição juntamente com a exposição de outros artistas que tiveram assim como eu suas obras danificadas pois a equipe designada para recolher não tinha o menor preparo para esse serviço! Passamos dois tentando reaver as obras para retomar a exposição em outro local, o que só aconteceu nos últimos dias do salão onde tivemos que arregaçar as mangas e montar tudo novamente, mesmo faltando obras e com algumas danificadas. A recompensa foi ver a grande visitação do povo maravilhoso de Teresina que curte tanto a arte, arte que acontece o tempo todo enquanto dura o salão, com muita música folclórica, grupos de rock, performances e apresntações teatrais, viva Teresina! O post acima é das obras encostadas nas grades do teatro 4 de setembro após a devolução e as próximas são da exposição remontada.".

*Texto em aspas extraído do blog do artista Ricardo Soares

sábado, 14 de agosto de 2010

Conto

(imagem - google)

A História de Zé Viúvo - Parte I

(Para Antonio Meruóca, meu pai, que me contou essa história)

A chegada

A rotina da casa onde Zé Viúvo, sua mãe - a velha Zequinha, e o irmão Chico Novo se alterou quando Zé-Du-Carmo chegou. Era noite de um sábado sem lua, sem vento, e o calor pregava a camisa no peito magro do filho desajustado que de surpresa aparecia ali. Cigarro no canto da boca, mala na mão, com a outra empurrou, com jeito de quem ainda conhecia,  primeiro a meia-porta de cima. Depois enfiando a mão mais abaixo encontrou o ferrolho da outra meia-porta. O barulho fez a velha deixar a cozinha onde, à mesa, o inseparável Chico aguardava a janta. Reconheceu-o sem vacilo, mas depois do abraço lembrou do impasse que Zé-du-Carmo podia provocar na casa, mas Deus havia de colocar paz entre os três irmãos, pensou. Quando Chico Novo o cumprimentou, com a frieza das lembranças carregadas pelo tempo, Zé-du-Carmo colocou a mala num canto da sala, pediu um copo dágua e uma rede à mãe. Dormiu o dia seguinte, só levantando com o barulho do caminhão  estacionando frente a casa. Era Zé Viúvo chegando das viagens que fazia.

O caminhoneiro

Viúvo era uma sujeito muito requisitado pelos comerciantes, ambulantes  que vendiam suas mercadorias nas cidades da região de Picos. Na bolé do chevrolet acomodava as mulheres; os homens sentavam em estrados adaptados na carroceria do caminhão, vigiando suas mercadorias. Não reclamavam do desconforto entre sacos de goma, farinha, feijão, milho; nem do mau cheiro dos animais - porcos, bodes, galinhas etc. E era muitas vezes na cabine do caminhão em movimento que Zé Viúvo contactava discretamente suas aventuras amorosas, entre uma marcha e outra, alegrava a comadre passageira com uma frase sugestiva. E nenhum marido jamais desconfiou do decoro daquele motorista amigo de todos. Estava sempre lúcido. Bebia um refrigerante nos bares  onde seus passageiros repetiam uma cachaça, uma cerveja - despesa puxada por uma pequena parcela do lucro das suas vendas. Era uma fera mansa; o bote, um instinto domado.

O encontro

Não viu a mãe à porta, decerto doente, pensou. Ao se aproximar o cheiro do fumo colocou-o em alerta. Então ele voltou, baixou a cabeça no esforço de subir  meia-dúzia de degraus até a entrada da casa.
Eram do mesmo tope. Três homens não tão altos nem tanto fortes. Não fosse o bigode de Viúvo, seriam confundidos pelas ruas de tão parecidos. Por um minuto ninguém falou, dava pra ouvir o suspiro da velha no quarto contando caroços do terço em oração. Foi Chico Novo quem quebrou o gelo.
— Zé-du-Carmo chegou ontem do Pará. Vai passar uns dias com a gente.
Os contrastes vacilaram, mas apertaram as mãos. De certo, a fadiga e o cansaço de um, a rede censurável do outro, fizeram a noite hostil, mas também impotente.

Zé-du-Carmo

Em 1972, às seis horas de uma manhã de segunda-feira, Zé-du-Carmo chagou a sua casa, depois de uma farra na rua dos cabarés. Abriu a porta discretamente para não ser ouvido e foi banhar no chuveiro improvisado no quintal. As páginas policiais do jornal não teriam noticiado se a porta dos fundos naquela manhã não tivesse gerado um rosto estranho que fez o sabonete escorregar das mãos do ainda então jovem Zé-du-Carmo.
Repentinamente lúcido, ele vestiu a cueca e, sem pena da ratinha encolhida num canto da sala, sua mulher, espancou-a sem dó. As pancadas mais silenciosas que o mundo traído já ouvira. Depois armou-se de uma pequena pistola, montou na bicicleta e sai em perseguição ao herói passivo. Cinco quarteirões de pontas retorcidas, dezena de pedaladas sobre a moral.  A  vinte metros de distância, sacou da pistola,  mirou, sob velocidade da bicicleta, o indivíduo. Ali perto, uma cambada de alunos que aguardavam do lado de fora a escola abrir, presenciaram dois balaços, um sujeito gritando com sangramento nas nádegas e outro pedalando rua acima, de cuecas, com uma pistola na mão.

A prisão

Ouvidas as testemunhas o delegado providenciou diligências em busca do culpado. Com gasolina custeada pela família da vítima, a viatura seguiu de Picos a cidade de Jaicós. Na praça avistaram o velho chevrolet. Revistado, encontraram no porta-luva uma pistola, no que o delegado sacou o pente e constatou a falta de duas balas. O passo seguinte foi localizar o fugitivo.
A princípio, Zé Viúvo pensou que aquela abordagem policial na casa da amante, a professora Ritinha, fosse retaliação do marido dela que se encontrava viajando. Só na delegacia pode saber da acusação. A partir daí a realidade perde sentido e tudo se torna sintético na vida de Viúvo. Seu depoimento não entrou em contradição com o fato. Havia partido de Picos a Jaicós às seis e meia daquele dia.
— Antes de viajar, onde esteve?
— Em casa, tomando café.
— Quem preparou o café?
— Eu mesmo.
— Quem mais mora na sua casa?
— Minha mãe e um irmão, o mais novo.
— Estavam na mesa?
— Não, dormiam.
— E essa arma, é sua?
— Sim. Levo nas minhas viagens. Onde encontraram?
— Eu faço as perguntas. Sabe informar das duas balas que faltam no pente?


A condenação

A necessidade de manter-se na vida é mais forte do que o isolamento acerca dessa vida. Du-Carmo assistiu passivamente à condenação do irmão. Na saída do tribunal, levantou os olhos e o viu ali de pé, a sua frente, num fragmento de espera, algemado. Encarou com olhos artificiais toda a verdade que Zé Viúvo já sabia.

F wilson

Ponto final

Acrescento um ponto final

Releio muitas vezes as mesmas linhas.
Até que decoro.
A mesma história e despedida.
Me canso.
Mas antes de rasgar esta folha, antes de esquecer o dito e o não dito .
Eu apago as vírgulas e reticências...
Acrescento um ponto final. 

Milena Pontes

Extraído do blog abram aspas - do teclado pra fora  

Dieta de poeta

 (a poeta Valéria Terelho)
sem açúcar e não calóricos
 

sem eira, nem beira:
de bobeira, cheia de dúvida,
aguardo a segunda-feira.

à frente, um magro (can)sábado,
seguido de um domingo pálido,
minguado de prosa & poesia.

dias lights,
de pausas diets,
fartos
de zero causas.
 

valéria tarelho
* poema do baú

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A essência da poesia

(Imagem - google)

Emerson Araújo

Espanto
 
Para Mestre Hiran Silva (meu pai)

A mesa farta o domingo
Caminha a passos
Largos na fatia de laranja
Posta o guisado a sobremesa
Uma taça de cristal
Enfeita

O domingo a manta
Todos
Ao redor refazendo
A família quadro da santa ceia
Entre humanos
Eleita

A manta a pluma
A boca sorve
Pecado e gula
Festa e brinde
Paz na sala
Refeita

Farto o domingo
Constrói-se entre falas
Ao longo da mesa
Pratos e jarras
Em bailados as mãos o olhar
Presenteia-se.

Extraído do blog legal - expressão em mote

Crônica

(Av. Frei Serafim - foto Portal AZ)

Presente de Grego
 
Cineas Santos*

Antes mesmo do aniversário de Teresina (16 de agosto), a cidade recebe e agradece o “presentão”, louvado na mídia local como algo extraordinário. Engana-se quem, porventura, estiver pensando no tal mirante da ponte estaiada, na vigésima “reinauguração” da Potycabana ou em coisa parecida. A cidade está exultante com a inauguração de mais um supermercado na zona leste da cidade. Novidadeiro como ele só, o teresinense atendeu ao chamado do “progresso”: lota o gigantesco estacionamento e faz filas para conferir mercadorias, preços e prazos. Segundo uma cidadã bem-nascida que ostenta, com orgulho, um sobrenome pomposo, “Teresina, finalmente, ganha ares de cidade moderna, livrando-se do rótulo provinciano de Cidade Verde”. Acertou em cheio. Para a construção do novo templo do consumo na capital, derrubaram-se dezenas de árvores centenárias. Da noite para o dia, mangueiras, jaqueiras, oitizeiros e cajueiros foram reduzidos a pó. Onde, até bem pouco tempo, havia um dos clubes mais tradicionais de Teresina, com piscina, campo de futebol e espaçosa área verde, ergueram-se galpões modernosos, com cores berrantes, abarrotados de quinquilharias. Este parece ser o destino de todos os clubes da capital (Flamengo, River, Piauí, Tabajara, Classes Produtoras, etc). 
 
Neste ritmo, em dois ou três anos, não sobrará um.É extraordinário o esforço que os teresinenses vêm fazendo no sentido de despir a capital do tal rótulo “Cidade Verde”, cortesia do escritor Coelho Neto, na década de trinta. Até onde sei, ainda não se fez um levantamento de quantas árvores são derrubadas em Teresina a cada dia. O tal “cinturão verde” da capital, há muito, tornou-se um amontoado de “vilas”, eufemismo usado para designar as favelas da capital. Quintais e chácaras dão lugar a edifícios de nomes sofisticados ou condomínios fechados que usam como chamariz o anzol da “segurança”. O que se vende não é um produto, mas uma ideia, uma grife, uma expectativa que não se cumpre. “Morar bem”, segundo o conceito dos expertos, é enjaular-se num apartamento com ar condicionado em cada um dos cômodos, circuito interno de televisão, porteiro eletrônico toda a parafernália que engorda o faturamento da indústria do medo. 
 
Compreensivelmente, todas as praças de Teresina estão às moscas, exceto as dos shoppings onde existem ar refrigerado e “segurança”. O teresinense já não consegue viver ao ar livre e, a cada dia, vai-se tornando refém do “clima artificial” e do medo que, como diria o poeta, “esteriliza os abraços”. Só assim se explica a sofreguidão com que recebe de braços abertos os presentes de grego que nos chegam a cada dia. Brava gente. Pobre gente.


* Cineas Santos é professor, escritor, editor e proprietário da casa "Oficina da Palavra"
Texto extraído do Blog Kenard Kaverna - "entrem sem bater". Lá veiculado em 09.08.2010.

Humor

(www.lutecartunista.com.br)

domingo, 8 de agosto de 2010

sábado, 7 de agosto de 2010

Erótica

(Picasso. Fonte: picassopesquisaderomeuzanchett.arteblog.com.br)

Espanhola

Há um rio que brota de mim,
Todas as vezes que te leio,
Afasto devagar minhas coxas,
E não mais tenho freio,
Enfia, cão no cio:
Faça uma espanhola
Bem no meio do meu seio!

Marlene C N

Elizeth Cardoso - Barracão de Zinco

Adoniran Barbosa e Elis Regina

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Humor

Priscila - Ponto "G"
Lanza - O poder da mente




terça-feira, 3 de agosto de 2010

Questões Pedagógicas

(charge de Ivan Cabral)

Criatividade, inovação e encantamento: a reinvenção da escola


Max Haetinger
Mestre em Educação; Especialista em Criatividade,
Tecnologias Aplicadas na Educação,
Psicopedagogo, Palestrante
Autor de vários livros.


"A teoria da Evolução, de Charles Darwin
nuncaa esteve tão presente entre nós.
Caros Colegas professores, ou evoluímos ou seremos extintos." 
Nos últimos anos temos sido bombardeados por novos termos, novos olhares, e novos valores na vida e na educação. Do marketing surgido nos anos 80 ao bullying nos dias de hoje a educação e os educadores têm feito um esforço tremendo para se atualizar e gerar novas saídas para um velho problema: relação entre alunos, professores e o conhecimento.

Mas qual seria a saída verdadeira? Existe uma fórmula consagrada que resolva nossas angústias frente ao quadro quase caótico do ensino/aprendizagem em muitos recantos deste mundo? Como promover uma escola que seja capaz de mudar e se transformar sem perder o conteúdo? E, principalmente, como fazer tudo isso e manter os alunos focados e motivados no processo de seu desenvolvimento como indivíduo e de sua formação?
(...)
Para responder, vamos começar a olhar e refletir sobre as palavras do nosso título.
CRIATIVIDADE: essa palavra tem perseguido nosso dia a dia nos último trinta anos, mas o que ela pode realmente propor para a escola e para a relação alunos, professores e conhecimento?

Sem dúvida, a criatividade é uma das valências humanas mais importantees nesta era do conhecimento e da informação. Criatividade é o diferencial dos vencedores, quem gera novas idéias é que se destaca, não quem acumula informação, afinal qualquer aparelho eletrônico hoje pode retê-la.

A forma com que usamos essas informações acumuladas em nossa mente, em livros, DVDs, sites, redes sociais virtuais ou reais, mp3, e por aí vai, é o que nos diferencia e nos torna autênticos ou não. Por isso a criatividade passa ser muito importante em nossa formação, não basta acumular, tem que criar para então se diferenciar das máquinas.

A criatividade vem para, de certa forma, substituir a capacidade de memorização no processo de ensino/aprendizagem.

E não pensem que o pensar criativo é mágico e vem simplesmente como um dom divino. Ele é fruto de muito esforço, trabalho duro, autonomia, expressão, diálogo, respeito mútuo e, principalmente, de uma escola mais vivencial, mais conectada com a realidade em que vivemos. Uma escola do jogo das atividades lúdicas e da expressão, que esteja sempre se desafiando. Uma escola onde os alunos têm a possibilidade de vivenciar o que sentem necessidade, onde a tarefa começa no banco escolar, mas acaba na comunidade. Da reflexão para a ação, e da ação para expressão; da expressão para criação, e da criação nasce a nova sociedade; e da prosperidade e dos valores éticos correspondentes com o tempo em que vivemos.

Para as autoras Bordini e Aguiar: “A criatividade ultrapassa o puro lazer e pode convencer-se em aquisição de conhecimento quando se processa planejadamente. É um meio de apropriação e transformação da realidade, gerando prazer e conhecimento, de formas não exclusivas. Supõe uma relação do homem com o mundo, em que o alvo não é meramente o conhecimento do que existe, mas a exploração do existente para algo novo.” (1993).
(...)
A segunda palavra de nosso título é INOVAÇÃO e inovar é hoje uma necessidade e não uma opção. Inovação está ligada à transformação que temos que realizar em nossos processos de aprendizagem, de gestão, financeiro, existencial..., ou seja, neste nosso mundo tão veloz e quase frenético, ou estamos sempre em atualização, inovando, ou ficamos para trás em instantes.

Vivemos numa era na qual, em segundos, as coisas se transformam, na qual o mundo está ao alcance de todos e um acontecimento no Japão pode mudar nossa vida aqui no Brasil em instantes. Nossos jovens, através do computador e de outros muitos meios de se conectar com esse universo globalizado, mudam e transformam rapidamente a sua forma de ser, fazer e conviver. Portanto, para estarmos com um discurso coerente e em condições de pôr em prática tudo o que significa EDUCAR também precisamos nos adaptar a estar em constante evolução e transformação.

Isso significa que, na prática docente, cada dia ao prepararmos a nossa aula devemos nos perguntar: não existe uma nova forma de abordarmos esse conhecimento? Qual a melhor forma de transmitir esse conteúdo ao meu aluno? Devemos anexar em nossos processos as mídias, vídeos, filmes, áudios, fotos e pesquisas na web em nosso tratamento diário com o conhecimento.
(...)
Na economia formal a inovação é vista como única forma de salvação e reinvenção das empresas e serviços. Para mim, na escola, inovação é a única forma de mantermos os alunos presentes e, mais do que isso, aprendendo, pois neste século assistir à aula não significa aprender, aprender é interagir. Entretanto, para interagirmos os processos têm que ser inovadores e condizentes com a realidade de nossos educadores.

A teoria da evolução de Charles Darwin nunca esteve tão presente entre nós. Colegas professores, ou evoluímos ou seremos extintos.

E nessa terceira palavra do título, e também muito importante, é ENCANTAR. E aqui não pense que estamos neste século falando apenas do sentido direto da palavra encantar ou encantamento. Sempre que me refiro a esse termo quero me referir ao sentido lúdico, se buscarmos as definições formais veremos que encantar é exercer influencia mágica, fascinar, cativar pessoas ou situações, é provocar admiração, causar satisfação no outro.

As definições descrevem uma ação cheia de valores de fundamental importância, pois vivemos no mundo do encantamento e as crianças desde cedo são encantadas pelos meios reais e virtuais que as cercam, do “parquinho” de diversões (pracinhas hi-tech, videogames, internet, computador, câmeras digitais) aos passeios e conversas com amigos. Nossos alunos, sejam eles crianças, adolescentes ou adultos, estão sujeitos a esses encantamentos midiáticos e reais. E nossas aulas estão carregando dentro delas esses encantamentos? Nosso discurso está encantando ou assustando?

(...) encantar em sala de aula é fazer aquilo que o aluno não espera, é surpreendê-lo, é fasciná-lo. Cabe ao educador realizar coisas novas, praticar a INOVAÇÃO e, principalmente, proporcionar e buscar de seus alunos a CRIATIVIDADE no tratamento dos temas e conteúdos. Com isso a escola se renova e ENCANTA e nós, professores, poderemos construir de verdade uma geração do futuro, que vai buscar novas saídas para este mundo, novas idéias, novas atitudes e, especialmente, novos valores, tão necessários diante dos grandes e novos desafios com que temos nos deparado em nosso dia a dia.



Texto veiculado na Revista Aprendizagem. Ano 3 nº 15/2009

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Humor


Mafalda


Kelvin


Ivan Cabral

domingo, 1 de agosto de 2010

Tarântulas

(imagem: google)

Por J. L. Rocha do Nascimento


UM CLARÃO DENTRO DA NOITE

Teve um dia que a chuva veio mais forte, chuva de raios e trovoadas. É certo que naquela hora me lembrei das palavras de minha avó. O mundo não acabaria duas vezes do mesmo jeito. Se tivesse de acabar seria com fogo. Por isso mesmo, quando o tempo era de preparar a terra, evitava sentar na varanda, como sempre fazia no final de cada tarde. Nas montanhas, o céu ardia em chamas. Não contava pro pai, mas tinha medo do fogo avançar até nossa casa, queimar nossas vidas.

Que no dia daquela chuva meu medo foi muito maior eu não nego. Todos reunidos em torno da mesa de jacarandá sob a luz do velho lampião, cuja chama, embora já gasto o pavio, teimava em resistir ao sopro do implacável vento.

Todos fechados na alma para espantar o medo, menos meu pai. Eu não era o único que tremia. Meu dedo indicador da mão direita, aquele das trinta noites de febre sezão, ficava enrijado nessas horas, sinal de que a noite seria longa. Por certo, meu tio Antonio não viria para contar histórias de trancoso. Se tivesse de vir, antes ouviríamos o assobio. O que ouvimos não foi um assobio. Meu irmão achou que era um tropel de cavalos ao redor da casa. Minha mãe disse que as batidas eram na porta. Eu não disse palavra. Meu pai encerrou o assunto dizendo que eram apenas trovões. Pra completar, piscou de forma intermitente o olho esquerdo do meu irmão. Ocorria sempre que estava na iminência de sofrer um colapso. Meu pai percebeu quando minha mãe o procurou com o olhar. Mas antes que minha irmã caçula começasse a soluçar, ele, mais rápido que pensamento, abriu a porta (que fechou em seguida) e arremessou o velho machado para bem longe, além do pátio da casa. Pra atrair os raios, disse. Lembro-me agora que entre o abrir e o fechar o mundo lá fora se iluminou e o clarão revelou uma face serena. Quando disse não se preocupem, já passaram, aqui eles não entram mais, os pulmões de meu irmão pararam de chiar.

Um simples gesto aquele. Que alívio. E então olhamos pros olhos de nossa mãe, que nos confortava com um sorriso. Meu pai retomou seu lugar à mesa. Minha irmãzinha voltou a se entreter com a boneca de espiga de milho. Meu irmão, me provocando, fez girar sobre a mesa o seu pião.

Estávamos seguros, o mundo não ia se acabar.
 
 
Extraído do Blog Confraria Tarântula - lá publicado em 28.07.2010