quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

J.L. ROCHA NASCIMENTO

Ao som dos primeiros movimentos, lembro-me da fatídica viagem, de como e de quando lá chegamos. Um pequeno povoado. Deserto, poeirento e debaixo de um sol de cozinhar. Entramos. A taberna era rústica e suja. Mariachis dedilhavam suas guitarras ao fundo. Ao longe, um lamento forjado ao sopro de um trompete. Violinos orquestrados compunham, por fim, o cenário. O taberneiro suarento, sempre esfregando as mãos numa toalha encardida, nos serviu, em tigelas de barro, algo muito travoso para ser vinho. Ela não gostou. Nada que lembrasse as sessões homéricas de vinho tinto, uvas Itália e morangos silvestres. Ao lado, uma linha, uma velha estação, o vaivém barulhento de uma porta. A civilização já passou por aqui. É. Brincando, ela fez um longo enquadramento com as mãos. Tarantino ou Sérgio Leone? O original, eu disse.
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Enquanto o trompete agoniza, entrecortado pelo dedilhar suave sobre a harpa, lembro também de como, aproveitando uma pequena trégua, tentei penetrar aqueles olhos, mas os cabelos, desalinhados pelo vento, debatiam-se por sobre o rosto, tirando-me a visão das amêndoas negras. Se os visse, se os penetrasse fundo, imaginei, talvez a demovesse da idéia, como naquele final de tarde em que, ao fim, embeberam-se uns nos outros, brilharam-se uns pros outros e juraram-se uns aos outros.
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Queria uma última chance. Julgava que tinha me esforçado. Tanto que, no prelúdio, os dedos ainda se tocaram, embora sem a harmonia de antes. Mas logo percebi que seria impossível reproduzir o monólogo das mãos.
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E nada foi mais doloroso do que o movimento final, anunciado pelas notas graves e marcadas do violoncelo. Quando, de repente, se ergueu e selou-me o rosto com um beijo. Meus olhos cerraram-se, repeliram qualquer movimento na tentativa de reabri-los. O receio era o de perceber o óbvio. E sumiu lentamente na poeira arrastada pelo vento - que também abria e fechava portas -, nas ondas tremulantes de calor. Ficou a sensação de uma miragem, nada além.
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Nunca mais a vi. A não ser quando ouço concierto de aranjuez, como agora, na voz de Nana Mouskouri. Milles Davis que me perdoe com o seu adágio.
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É noite de natal. Mais alguns instantes e os ponteiros estarão sobrepostos. O vizinho do lado ouve Noite Feliz. Que vinho ele bebe, não sei. A mulher corre pra cozinha. As crianças, em torno da árvore, aguardam com ansiedade a chegada do bom velhinho.
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Pobres coitados. Pobre de mim.
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Não sei qual dos mundos merece mais compaixão.
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J. L. Rocha do Nascimento
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Extraído do Blog Confraria Tarântula

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sem palavras

Gerad Hoffnum


Sinfônica de Berlim


Villa Lobos


Gato guitarrista

RCA

Clara Haskil

Karajan

Karajan

Jacqueline Du Pré

Orquestra de bichos

Vanessa Mae

Janine

Jacqueline Du Pré

sábado, 21 de novembro de 2009

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O professor e escritor Airton Sampaio simplesmente critica o mal feito que se faz no Piauí. O mal, o pior, os doentes na política e os sintomas graves na nossa literatura. É fácil enxergar o que ele diz, mas difícil para tapados acomodados aceitarem a crítica apurada.

Na Sala de Aula


CHICLETES

Luisa caminhava lentamente, preocupada com a tarefa não feita. Inventar outra desculpa: "professor, tô de caderno novo", ou "fui ao centro fazer compras com a mamãe". Não ia mais colar. Ele olha no olho da gente e vê que tem mentira. O pior é que ele sempre tem uma piadinha para cada desculpa: "caderno novo, coitado do velho, nunca mais vem à escola". A Aninha foi cair na besteira de dizer que não tinha feito a tarefa porque tinha ido pra casa da avó dela que tava doente, aí o professor perguntou se ela não tinha encontrado o lobo mau no meio do caminho. Mas o pior foi a Zélia. Também, a burra foi dizer que não tinha feito a tarefa porque havia chovido. E a turma, claro, nem esperou ele perguntar se a chuva tinha alagado a tarefa dela. Caíram todos na gargalhada. Fiquei com pena da Zélia.
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Levantou os olhos e avistou Carlinhos. Acelerou o passo para a salvação.
-- Carlinhos, espera! Gritou.
O menino ajeitou os óculos para ver a amiga correndo, arrastando a pesada mochila escolar. Chegou até ele, ofegante.
-- Respira um pouco, estamos atrasados, disse ele.
-- Pega um chiclete, ofereceu a menina.
-- Não quero mais chiclete.
-- Por quê?
-- Todo adulto briga. Minha mãe, tia, professora e aquele professor vive dizendo que tem bosta de porco na bula do chiclete. Chega, não quero mais chiclete.
-- Fica assim mesmo, guarda, é só um chiclete.
-- Além do mais cor-de-rosa, pega mal, se os panacas da escola me verem, vão me encher o saco.
A menina sorriu, estendendo a delicada mão onde pequenos dedos apertavam o chiclete macio. Carlinhos aceitou e guardou no bolso. Depois continuaram o caminho da escola.
-- Não fiz a tarefa.
O menino não viu desespero na fala dela.
-- Você não me ouviu, não fiz a tarefa.
-- Estamos atrasados, minha mãe vai me chatear porque não cheguei à escola na hora.
-- Dá tempo copiar, vai sujar comigo?
O menino tirou o caderno da mochila e o entregou a Luísa. Ela soprou aliviada, sentou ali mesmo na calçada e abriu sua mochila a procura do caderno.
-- Me dá cobertura, mastiga o chiclete, disse ela.
-- Pra quê?
-- Vai começar de novo?
-- Acho bom você se levantar, estou vendo o carro do professor, vai passar por nós.
-- Merda!
A menina se levantou depressa e eles continuaram o caminho pela calçada. Adiante o carro parou. O professor baixou o vidro.
-- Estão atrasadas, crianças, entrem no carro.
Eles se entreolharam. Luísa xingou o silêncio e o menino deu de ombros.
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Na sala de aula Carlinhos mordia ferozmente o chiclete que ganhou de Luísa. Hoje acerto contas com eles, pensava. O chiclete estava na liga perfeita, mastigava agora de maneira vulgar, para ser percebido; soprou uma bola que estourou no ouvido da professora. Conseguiu o que queria, a professora mandou o menino esvaziar a boca. Foi ao banheiro. Saiu verificando os corredores e pátio da escola. Estava limpo. Atravessou, sob sol agonizante, a quadra de esportes, vazia àquela hora da manhã. Adiante encontrou a "floresta", como chamavam os alunos. Era uma pequena reserva de árvores caatingueiras, preservadas no espaço onde construíram a escola. Chegou no local que lhe era familiar, retirou as folhas do galho de um arbusto e estendeu o chiclete no pequeno galho pelado. Era o "visgo", armadilha fatal para passarinho. Assoviou imitando um pássaro e partiu em correria, a professora já devia sentir sua falta.
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-- Onde você foi, perguntou Luísa.
-- Fazer uma visita.
Campainha de saída bateu. Ansioso e preocupado em ser visto, retornou à "floresta". Mas estava sendo seguido. A armadilha deu certo, capturou não só um, mas um casal de canários. Nervoso de emoção, sentiu suas mãos gigantes ao prender um dos pássaros. Abriu cuidadosamente um bolso na mochila e já ia metendo o canário quando um estouro o assustou. Olhou para trás e viu Luísa, mascando chiclete, assistia toda a operação.
-- Tá vendo, o canário fugiu!, reclamou o menino.
-- Melhor soltar o outro, fui intimada à diretoria pedagógica por causa da tarefa, aproveito para lhe denunciar.
Sem falar nada, Carlinhos libertou o outro canário. Colocou a mochila nas costas e saiu na frente, não queria conversa. Atrás dele, Luísa gritou:
-- Carlos, tava certo em não querer mais chiclete!
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f wilson

domingo, 25 de outubro de 2009

Conto para criança

(Foto: "canários" - Flickr do Yahoo)

Os cabelos de Clarice
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Clarice saiu do útero da mãe de cabelos longos. uma bebê cabeluda. A enfermeira cortou o excesso para que o corpinho rosado não fosse emaranhado.
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Era um cabelo louro. O mês de junho soprava o vento nos cabelos da menina e fios dourados voavam pelas ruas por onde ela corria. A pianista Aderalda, sua vizinha, recolhia os preciosos fios para marcar colunas de acordes nas páginas das partituras que ela trabalhava diariamente, numa sala onde um piano de dimensões colossais era o mais dramático oratório de uma devotada pianista da catedral Bach.
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Quando a velha pianista morreu, Clarice já tinha sete anos de idade. A casa e o piano ficaram abandonados na casa vizinha e ninguém ainda tinha se apresentado para reclamar o imóvel. A velha Aderalda terminara "moça-velha". Seu último - e parece que único na vida - companheiro, um maestro talentoso, cometera adultério com uma jovem pianista e fora assassinado pela esposa. Mas isso já se passara mais de quarenta anos.
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Quando Aderalda morreu, os cabelos de Clarice começaram a cair. A suave massa sonora que se expressava da vizinha e que alimentava a vida e paixão da menina deixara de existir. Clarice não mais cantava. Tampouco se importava com os fios de cabelos que se espalhavam pelo chão da casa. O vento agora era um canto instrumental monótono, fazia seu trabalho de limpeza: recolhia os fios caídos dos cabelos dela, Clarice.
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Na escola, passou a ser chamada de "menina carequinha". A mãe lhe comprou uma dúzia de bonés.
-- Seu cabelo vai voltar, Clarice, de fazer trança, como Rapunzel, dizia a mãe.
-- Quando, mamãe?
-- Quando você voltar a cantar.
Ela aninhava a menina nos braços e, com lágrimas, pedia a Deus que devolvesse os cabelos e a voz de Clarisse.
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Numa manhã de domingo, era junho, Clarice acordou com uma música vinda de um pé de caju, no seu quintal. Vinha de um ninho de passarinhos. A música instrumental, a feliz sonoridade de faculdade universal de "dizer tudo, embora sem palavras".
Um passarinho ia e vinha, era o macho terminando de construir o ninho - com fios de cabelos, loiros. Clarice sentiu que o idioma musical minado em sua garganta explodia, podia acompanhar o canto dos pássaros, um estímulo que a liberou num impulso de arte, filosofia, religião...
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Esperou o passarinho retornar de sua viagem, constante naqueles dias, da casa desabitada da pianista. Era um canário amarelo, formoso, parecia uma guitarra Fender. Algum tempo depois ele pousou na janela do teatro. Clarice dormia. Depositou fios de cabelos junto ao rosto dela no travesseiro e assoviou uma cantata de Bach. Depois abriu as asas de Deus, com suas penas amarelas, e massageou a carequinha de Clarice.
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F Wilson

sábado, 17 de outubro de 2009

Repost


Fruta
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Como é doce a palavra
Nos teus lábios de açucena
Pele macia na minha alma
Olhar de esperança acena
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Teu sorriso de criança salta
Do rosto feito gente inocente
Que pisa no coração dos conflitos
E voa na contramão do infinito
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Como a lua de todo dia
Teu rosto é a mesma poesia
Como a lua em toda fase
Teu rosto em sedução disfarça
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Fruta madura na casa
Faz poesia nua embriagada
Vinho sangrando tu'alma
Lábios suando rasgados
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F Wilson

Conto de M. de Moura Filho no "Confraria Tarântula"

(foto na net, sem crédito)

A ENCOMENDA
Por M. de Moura Filho

"Atirador, quando compra vingança alheia
Tem que ter veneno na veia
Tem que saber andar num chão de navalha
Atirador tarda mas não falha"
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Atirador, por Lula Queiroga
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Sentado em frente ao homem de branco, viu a mão pálida aproximar-se, arrastando-se no tampo da mesa, pressionando uma foto. Afastou-se rápida, e sumiu por instantes. Uma gaveta abriu-se. A mão pálida voltou segurando um envelope. E ouviu o homem dizer "mate o canalha, e apenas o canalha." Pegou a foto, e mirou-a, mentalizando o rosto do homem morto; sim, já morto. A menos que o envelope não contivesse o valor do contrato. Virou a foto, os endereço impressos: o do trabalho e o de casa. Largou a foto. No envelope, o dinheiro acertado. Não disse palavra. Apenas se levantou e encaminhou-se para a saída. Ouviu ainda o homem de branco dizer que queria no jornal a notícia da morte do canalha. E pensou: "tá lá, doutor."
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Seus olhos miravam o cano da arma voltado para si. Antes recebera uma coronhada entre os olhos, que lhe deixou aturdido, com o corpo atirado ao chão. Tonto, tentou levantar. Não conseguiu se pôr de pé. Mas ajoelhou-se. E seus olhos miravam o cano da arma voltado para si. Olhou para o lado e viu G., inerte. Tentou extrair de seu olhar a traição que sempre esperou. Mas nada lhe foi revelado. Ela estava, definitivamente, aflita. Ou era boa atriz. Voltou-se para o cano da arma. Segurando a arma, um estranho. Corpanzil, musculoso, olhar fixo em si. Mirou no dedo a afagar o gatilho. Voltou-se para o cano da arma. Não lhe parecia que tremia. Mas sentiu líquido a queimar-lhe as coxas, molhando suas calças. O homem em fração de segundos virou-se para G. e seu olhar dizia-lhe para conter o grito que anunciava, e não cumplicidade entre eles, que lhe justificaria tamanha violência. Quis falar, mas som algum emitiu. Não sabia a razão de ter sido agredido com tanto vigor. Mirou novamente o rosto do homem. Expressão alguma denunciada, a não ser a sua frieza. O certo, a impressão que teve, é que nunca o viu. Seu olhar, mirando o homem com a arma, buscava uma explicação. Mas o homem mostrava-se indiferente. Ouviu G. balbuciando "por favor, não faça isto. Pegue o que quiser, mas não faça isto." O homem voltou-se para G. Pareceu-lhe ainda ausente qualquer cumplicidade. O homem estava disposto apenas a fundar o terror: afinal, em nenhum momento mencionou os dólares, ou as jóias, ou o Audi estacionado. Em verdade, não mencionara nada. Disse ao homem que não tocasse em G. O homem aquiesceu, encolhendo os ombros. Agradeceu-lhe. Sabia que G. não seria tocada. Na firmeza do homem em agredir-lhe, sentiu que poderia nele confiar. Ouviu o estampido e sentiu queimar a fronte.
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Surpreendeu-se ao abrir a porta, projetando-se contra a parede. Um homem invadiu o seu apartamento, com uma espingarda na mão. O barulho chamou a atenção de R., que lhe acudiu. Foi, barrado, porém, por uma coronhada entre os olhos. Caído, R. tentou levantar,em vão. Não entendeu nada do que ocorria. R. olhou-a como se procurasse ajuda. Tentou gritar, mas o olhar do homem a impediu. A arma sempre mirada para R. Se tanto, e o que se lembra, disse ao homem que não fizesse mais qualquer violência, que levasse o que quisesse do apartamento. O homem a fitou, e logo entendeu que não era um assaltante. Imaginou, a princípio, que pretendia violentá-la. Mas viu o homem dar de ombros ao pedido de R. de que não a molestasse. Então o pior aconteceu-lhe: o tiro. O rosto de R. desfigurou em pólvora e sangue. Em seguida, o corpo abruptamente desmoronou sobre o piso enxadrezado, como se abatido uma peça qualquer. Sentia o cheiro da pólvora ainda quando se debruçou sobre o corpo. O sangue tingia sua blusa branca. Entre dedos, ao segurar a cabeça sem vida, miolos. Berrou o nome do morto, entre soluços, entremeando com palavras ininteligíveis. Voltou-se, sem muito se afastar do corpo, para pedir socorro, mas apenas viu as pernas do assassino sumir pela porta. Gritou por ajuda. Nem os passos do assassino mais eram ouvidos. Estava só, com o corpo. Estava sozinha. Correu ao telefone ligou para 198. Depois, sentada no chão, pernas dobradas, abraçadas, ficou a mirar o corpo, e se imaginou sozinha para sempre. A noite chegava com o seu luto.
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Sucumbiu o desgraçado com uma coronhada, ao vir socorrer a cunhã, que afastara de sua frente. "O que foi, G.?", pronunciou-se o desgraçado. Seus passos interrompidos com a coronhada, que o projetou para trás, até que colou a bunda no chão. Tentou levantar, mas o cano da escopeta o impediu. Virou-se para lado, para onde estava a cunhã. Voltou-se para o filho da puta, que olhou para cunhã como se buscasse auxílio. Seu olhar cortou o grito da cunhã. Ela ainda balbuciou que não fizesse aquilo, que levasse o que quisesse. Olhou-a como se dissesse que apenas queria a vida do filho da puta. Virou-se novamente para filho da puta, que, trêmulo, pedira que não fodesse a cunha. Apertou o gatilho, atingindo em cheio o filho da puta, que foi projetado para trás. Virou-se e dirigiu-se à porta pensando que seria bom foder aquela piranha. Mas não seria ela que o faria descumprir um contrato.
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Extraído do blog Confraria Tarântula