sábado, 7 de agosto de 2010
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Questões Pedagógicas
(charge de Ivan Cabral)
Criatividade, inovação e encantamento: a reinvenção da escola
Max Haetinger
Mestre em Educação; Especialista em Criatividade,
Tecnologias Aplicadas na Educação,
Psicopedagogo, Palestrante
Autor de vários livros.
"A teoria da Evolução, de Charles Darwin
nuncaa esteve tão presente entre nós.
Caros Colegas professores, ou evoluímos ou seremos extintos."
Nos últimos anos temos sido bombardeados por novos termos, novos olhares, e novos valores na vida e na educação. Do marketing surgido nos anos 80 ao bullying nos dias de hoje a educação e os educadores têm feito um esforço tremendo para se atualizar e gerar novas saídas para um velho problema: relação entre alunos, professores e o conhecimento.Mas qual seria a saída verdadeira? Existe uma fórmula consagrada que resolva nossas angústias frente ao quadro quase caótico do ensino/aprendizagem em muitos recantos deste mundo? Como promover uma escola que seja capaz de mudar e se transformar sem perder o conteúdo? E, principalmente, como fazer tudo isso e manter os alunos focados e motivados no processo de seu desenvolvimento como indivíduo e de sua formação?
(...)
Para responder, vamos começar a olhar e refletir sobre as palavras do nosso título.
CRIATIVIDADE: essa palavra tem perseguido nosso dia a dia nos último trinta anos, mas o que ela pode realmente propor para a escola e para a relação alunos, professores e conhecimento?
Sem dúvida, a criatividade é uma das valências humanas mais importantees nesta era do conhecimento e da informação. Criatividade é o diferencial dos vencedores, quem gera novas idéias é que se destaca, não quem acumula informação, afinal qualquer aparelho eletrônico hoje pode retê-la.
A forma com que usamos essas informações acumuladas em nossa mente, em livros, DVDs, sites, redes sociais virtuais ou reais, mp3, e por aí vai, é o que nos diferencia e nos torna autênticos ou não. Por isso a criatividade passa ser muito importante em nossa formação, não basta acumular, tem que criar para então se diferenciar das máquinas.
A criatividade vem para, de certa forma, substituir a capacidade de memorização no processo de ensino/aprendizagem.
E não pensem que o pensar criativo é mágico e vem simplesmente como um dom divino. Ele é fruto de muito esforço, trabalho duro, autonomia, expressão, diálogo, respeito mútuo e, principalmente, de uma escola mais vivencial, mais conectada com a realidade em que vivemos. Uma escola do jogo das atividades lúdicas e da expressão, que esteja sempre se desafiando. Uma escola onde os alunos têm a possibilidade de vivenciar o que sentem necessidade, onde a tarefa começa no banco escolar, mas acaba na comunidade. Da reflexão para a ação, e da ação para expressão; da expressão para criação, e da criação nasce a nova sociedade; e da prosperidade e dos valores éticos correspondentes com o tempo em que vivemos.
Para as autoras Bordini e Aguiar: “A criatividade ultrapassa o puro lazer e pode convencer-se em aquisição de conhecimento quando se processa planejadamente. É um meio de apropriação e transformação da realidade, gerando prazer e conhecimento, de formas não exclusivas. Supõe uma relação do homem com o mundo, em que o alvo não é meramente o conhecimento do que existe, mas a exploração do existente para algo novo.” (1993).
(...)
A segunda palavra de nosso título é INOVAÇÃO e inovar é hoje uma necessidade e não uma opção. Inovação está ligada à transformação que temos que realizar em nossos processos de aprendizagem, de gestão, financeiro, existencial..., ou seja, neste nosso mundo tão veloz e quase frenético, ou estamos sempre em atualização, inovando, ou ficamos para trás em instantes.
Vivemos numa era na qual, em segundos, as coisas se transformam, na qual o mundo está ao alcance de todos e um acontecimento no Japão pode mudar nossa vida aqui no Brasil em instantes. Nossos jovens, através do computador e de outros muitos meios de se conectar com esse universo globalizado, mudam e transformam rapidamente a sua forma de ser, fazer e conviver. Portanto, para estarmos com um discurso coerente e em condições de pôr em prática tudo o que significa EDUCAR também precisamos nos adaptar a estar em constante evolução e transformação.
Isso significa que, na prática docente, cada dia ao prepararmos a nossa aula devemos nos perguntar: não existe uma nova forma de abordarmos esse conhecimento? Qual a melhor forma de transmitir esse conteúdo ao meu aluno? Devemos anexar em nossos processos as mídias, vídeos, filmes, áudios, fotos e pesquisas na web em nosso tratamento diário com o conhecimento.
(...)
Na economia formal a inovação é vista como única forma de salvação e reinvenção das empresas e serviços. Para mim, na escola, inovação é a única forma de mantermos os alunos presentes e, mais do que isso, aprendendo, pois neste século assistir à aula não significa aprender, aprender é interagir. Entretanto, para interagirmos os processos têm que ser inovadores e condizentes com a realidade de nossos educadores.
A teoria da evolução de Charles Darwin nunca esteve tão presente entre nós. Colegas professores, ou evoluímos ou seremos extintos.
E nessa terceira palavra do título, e também muito importante, é ENCANTAR. E aqui não pense que estamos neste século falando apenas do sentido direto da palavra encantar ou encantamento. Sempre que me refiro a esse termo quero me referir ao sentido lúdico, se buscarmos as definições formais veremos que encantar é exercer influencia mágica, fascinar, cativar pessoas ou situações, é provocar admiração, causar satisfação no outro.
As definições descrevem uma ação cheia de valores de fundamental importância, pois vivemos no mundo do encantamento e as crianças desde cedo são encantadas pelos meios reais e virtuais que as cercam, do “parquinho” de diversões (pracinhas hi-tech, videogames, internet, computador, câmeras digitais) aos passeios e conversas com amigos. Nossos alunos, sejam eles crianças, adolescentes ou adultos, estão sujeitos a esses encantamentos midiáticos e reais. E nossas aulas estão carregando dentro delas esses encantamentos? Nosso discurso está encantando ou assustando?
(...) encantar em sala de aula é fazer aquilo que o aluno não espera, é surpreendê-lo, é fasciná-lo. Cabe ao educador realizar coisas novas, praticar a INOVAÇÃO e, principalmente, proporcionar e buscar de seus alunos a CRIATIVIDADE no tratamento dos temas e conteúdos. Com isso a escola se renova e ENCANTA e nós, professores, poderemos construir de verdade uma geração do futuro, que vai buscar novas saídas para este mundo, novas idéias, novas atitudes e, especialmente, novos valores, tão necessários diante dos grandes e novos desafios com que temos nos deparado em nosso dia a dia.
Texto veiculado na Revista Aprendizagem. Ano 3 nº 15/2009
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
domingo, 1 de agosto de 2010
Tarântulas
(imagem: google)
Por J. L. Rocha do Nascimento
UM CLARÃO DENTRO DA NOITE
Teve um dia que a chuva veio mais forte, chuva de raios e trovoadas. É certo que naquela hora me lembrei das palavras de minha avó. O mundo não acabaria duas vezes do mesmo jeito. Se tivesse de acabar seria com fogo. Por isso mesmo, quando o tempo era de preparar a terra, evitava sentar na varanda, como sempre fazia no final de cada tarde. Nas montanhas, o céu ardia em chamas. Não contava pro pai, mas tinha medo do fogo avançar até nossa casa, queimar nossas vidas.
Que no dia daquela chuva meu medo foi muito maior eu não nego. Todos reunidos em torno da mesa de jacarandá sob a luz do velho lampião, cuja chama, embora já gasto o pavio, teimava em resistir ao sopro do implacável vento.
Todos fechados na alma para espantar o medo, menos meu pai. Eu não era o único que tremia. Meu dedo indicador da mão direita, aquele das trinta noites de febre sezão, ficava enrijado nessas horas, sinal de que a noite seria longa. Por certo, meu tio Antonio não viria para contar histórias de trancoso. Se tivesse de vir, antes ouviríamos o assobio. O que ouvimos não foi um assobio. Meu irmão achou que era um tropel de cavalos ao redor da casa. Minha mãe disse que as batidas eram na porta. Eu não disse palavra. Meu pai encerrou o assunto dizendo que eram apenas trovões. Pra completar, piscou de forma intermitente o olho esquerdo do meu irmão. Ocorria sempre que estava na iminência de sofrer um colapso. Meu pai percebeu quando minha mãe o procurou com o olhar. Mas antes que minha irmã caçula começasse a soluçar, ele, mais rápido que pensamento, abriu a porta (que fechou em seguida) e arremessou o velho machado para bem longe, além do pátio da casa. Pra atrair os raios, disse. Lembro-me agora que entre o abrir e o fechar o mundo lá fora se iluminou e o clarão revelou uma face serena. Quando disse não se preocupem, já passaram, aqui eles não entram mais, os pulmões de meu irmão pararam de chiar.
Um simples gesto aquele. Que alívio. E então olhamos pros olhos de nossa mãe, que nos confortava com um sorriso. Meu pai retomou seu lugar à mesa. Minha irmãzinha voltou a se entreter com a boneca de espiga de milho. Meu irmão, me provocando, fez girar sobre a mesa o seu pião.
Estávamos seguros, o mundo não ia se acabar.
Extraído do Blog Confraria Tarântula - lá publicado em 28.07.2010
Cotidiano
(imagem: google)
Festa
O sol já baixava quando estacionei o gol no acostamento. Naquela sexta-feira não quis ficar com outros professores da escola na churrascaria da esquina bebendo cerveja. Entrei no prédio e esperei o elevador. A vizinha que me beliscava, agora estava séria, acompanhada do marido. Subimos em silêncio. Do panorâmico eu via a cidade revezando cores e sons à noite, prematura ainda. Muito discretamente a vizinha dobrava um olho na minha direção. Até que ela tinha umas pernas boas, mas eu pensava em outras coxas, outra pele morena, eu sentia a maciez dos lábios dela. Os jovens são idiotas mesmo.
Girei a chave do apartamento e, no quarto, liguei o ar-condicionado. Dez graus abaixo me fazia pensar melhor. Enquanto retirava os tênis fui obrigado a buscar uma vassoura na cozinha, a burra da Maria, a empregada, havia empurrado minhas chinelas lá para metade de baixo da cama. Liguei o computador e fui ao banheiro. Galera, os computados se tornam lentos porque estão infectados, então, é melhor ligar, deixa lá carregando, chame o anti-vírus, vá ler um jornal, leve-o ao banheiro para reaproveitá-lo e só depois de dez ou quinze minutos vá utilizar a máquina - dizia o experto professor de informática. A turma dizia que ele era veado. Eu não estava interessado, pensava nos cabelos e nos olhos grandes, negros, brilhantes, da Jackeline. Sentado no vaso eu lia a coluna social do jornal. Filhas de políticos importantes prometiam charmear a festa, iam arrasar, dizia o colunista. Era outro veado.
Abri uma garrafa de vinho branco e destampei as panelas da janta preparada pela Maria. Até que estava cheirando. Precisava esquentar. Bateram à porta. Era outra vizinha, uma loura. Nas mãos uma fatia de bolo e salgadinhos. É aniversário de meu marido, trouxe para você, disse ela, estendendo o bolo, vá me visitar um dia. Agradeci prometendo vê-la na primeira oportunidade e ela saiu rebolando o corpo bonito. Era meu dia, ou minha noite. Comi os salgadinhos com o vinho. Ainda era cedo, fui dormi um pouco.
De longe avistei Jackeline, a poeta disciplinada. Nossos olhares se encontraram sobre cabeças, entre desconfianças dos ricos, donos da festa. Os velhos bebiam coca-cola vigiando as filhas, e os jovens se embriagavam falando de marcas de carros. Marquei mentamente o local onde ela estava. Minha ansiedade era de uma calma inquietante. Desviei-me de convidados no caminho, esbarrei-me em taças de champanhe, de vinho ou de cachaça que obstruíam minha passagem. Uma das taças derramou sobre uma senhora quando ela brindava alguma coisa com um velho.
– Ei, seu idiota! Gritou ela.
– Desculpe, dona. E olhei o vestido encharcado, dava pra ver os bicos dos peitos dela pregados no tecido branco, molhado - estavam duros. Ela ia ter que trocar de vestido, ou ir embora.
– Vamos pra casa, ouvi o velho falar, devia ser o pai dela. – Você também, mocinha, continuou ele, apontando para Jackeline. E tirano o paletó, cobriu a mulher, cuja delicadeza impedia de me dar uma lição ali no meio da festa.
A garota olhou para mim, abanava a cabeça, desolada. Tentei remendar a situação, puxando a de lado, explicando levá-la em cinco minutinhos - diga pro seu avô!
– Não sou avô dela coisa nenhuma, rapaz, disse ele, com mãos fortes me afastando da garota.
– Você sabe quem é aquele homem? Perguntou um garçom para mim, quando a família se fora.
– Qual homem? Perguntei.
– O velho, pai da... parecia ser sua garota.
– Eu pensava ser avô dela.
Ele abanou a cabeça para mim, decepcionado. Virou as costas. Na bandeja que carregava havia deliciosos vinhos. Fui atrás. Pedi desculpas, servi-me de uma taça da bebida e perguntei.
– Quem era o velho?
– O senador Portruco.
– Que mais?
Me examinou e disse.
– Ele é uma pessoa simples, sempre votei nele. Quando chegou ele me confidenciou que queria conhecer o namorado da filha dele, perdeu sua chance, rapaz.
O garçom era um sujeito de uns cinquenta anos, notei que ele não me encarava como um perverso.
A noite é uma imagem de momentos inacabados.
Ainda não era meia-noite quando cheguei ao “Foro’s”, um clube de música dançante na zona sul de Teresina. Quando adentrei o clube e vi tantas mulheres acreditei que Jackeline já era, ela e o pai (ou avô) dela cheios de dinheiro. Pedi uma latinha de cerveja num quiosque, bati os dedos no tampo do balcão acompanhando um forrozinho, beberiquei da lata uns goles e pensei. Ali estava muito melhor do que na festa dos ricos, eu estava em casa, eu era mesmo do povo. Confiava nos meus instintos, eles dominavam minha autoconfiaça. Soprei as mãos e saí em volta do salão de dança. Como todos os salões de dança onde há sempre uma luz negra, roxa, encarnada para cobrir o horizonte noturno da humanidade.
E foi naquele momento que fui ao encontro dos braços delicados da noite, da música que espinha o sentimento do amor. Eu estava uma merda mesmo. Estendi minhas mãos convidando uma garota encostada na parede para dançar, eu queria mesmo só um corpo quente de garota.
– Não quero dançar, ela nem me olhou.
Fazer o que, ela podia estar deprimida, coisa triste não pode haver. Era feinha mesmo. Outra, mais bonita.
– Dançar, princesa?
– Sinto muito, agora não.
Fazer o que, certas garotas, abandonadas... Onde estaria Jackeline?
Dei mais uma volta na noite. Na semi-escuridão do clube havia uma fileira de mulher encostada na parede. De cara achei que concorriam a um homem ali. Tava fácil, podia escolher, mas humilhei-me a primeira:
– Dançar?
– Não, sinto.
Meti minhas mãos ofendidas nos bolsos da calça jeans. Olhei a fileira indiferente a humilhação. Elas não escutavam devido ao som da música, também parecem não enxergar, pois deviam estar pensando no pão da terra e no vinho do céu.
– Dançar, minha linda? Pedi.
– Sinto muito.
Saí para respirar, lá fora a lâmina prateada da lua esquartejava minhas mãos. De uma coisa eu podia garantir: não estava cagado.
Troquei de quiosque. Pedi mais uma latinha de skol, para descer redondo. Aí veio um conhecido idiota com namorada e me perguntou se eu ainda não tinha tirado o dedo, aludindo se nenhuma mulher se engraçara comigo. Ainda não, falei. E a namorada dele rabiscava uns olhares para mim, no que ele desconfiou e deu o fora.
O relógio já estava amanhecendo, a última banda tocava uma música cansada, bêbada. Talvez não mais correspondia à lucidez, pois uma luz interior se apagava. Restava o capítulo de uma epopéia medíocre de um poeta cego, não fosse olhos e cabelos negros anunciando mais uma manhã.
f wilson
Assinar:
Postagens (Atom)








