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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Crônica

(Montagem: F Wilson)

Ovos de Páscoa


F Wilson (professor da rede municipal de Teresina)

Apresentadores de jornais televisivos teresinenses se sentem chocados (chocados vem de galinha choca que precisa de seus ovos) profundamente indignados com a violência, com o vandalismo, com a anarquia, com a selvageria produzida pelos professores da rede municipal.

A vítima: a Câmara. A senhora a quem o cidadão deve respeitar, obedecê-la, amá-la. E lá que vivem seus guardiões e guardiães. E dizem as más línguas que eram esses guardiãos e guardiães que estavam a suborná-la, tirando-lhe proveitos indecorosos.

Pois bem, internautas, leitores piauienses, os fatos hão de revelar a verdade através de imagens fortes. Há de se retirar as crianças (sem aula desde fevereiro quando começou a greve dos professores) da sala, da frente do computador, pois as imagens são fortes e apelativas - aliás, criança não devia nem olhar para cara de político - para não se contaminar. 

Então, caros internautas, a Câmara foi atacada. Apesar dela protestar da posição em que se encontrava, de ceder até certo ponto, e até mesmo da ameaça de chamar a polícia, os professores alvejaram seus ovos nos guardiãos da Câmara, esporraram gemas e mais gemas, quebraram cascas e mais cascas de claras férteis na tentativa de atingir o ponto "G" - do gozo da corrupção. Gemidos até houve, mas o negócio dos guardiões era, como saberão adiante, com ovos de páscoa. 
 
O flagrante: jornalistas detectaram impurezas líquidas nas cadeiras onde sentam os guardiãos; que tal denunciar mesas em posição de desalinho - onde ainda se percebe o ato de violência e o pingar viscoso e quente da gosma escorrendo do buraco desse escândalo.

Enquanto isso, caro internauta, o prefeito, em tempo de páscoa, vai doando seus ovos. E os guardiões e guardiães, para protegerem a Câmara, precisam ficar fortes.

Ovo neles!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Crônica

(Audrey Hepburn e Henry Fonda na versão de 1956 de Guerra e paz.)



Por Luiz Schwarcz( * )

Sobre caçadas e cenas de amor
 
( ... )
 
No primeiro arroubo que tive como escritor, há décadas, pensei em contar a história de um editor que, desiludido com a vida literária, inventava trechos de um romance inexistente, todo composto de acordo com as modas editorias do momento. Depois disso, ele o levava a Frankfurt, acompanhado de falsos aparatos, listas de mais vendidos e resenhas, vendendo-o a um número significativo de editoras de destaque mundial. Voltando ao Brasil, o editor refugiava-se no interior de São Paulo para escrever o tal romance. No final, conseguia terminar apenas um breve conto — uma verdadeira obra-prima, mas que não correspondia aos compromissos assumidos em Frankfurt. A trama continha um sem-número de outras bobagens, que nem sonho contar. Mas o mais absurdo foi o pedido que fiz a Rubem Fonseca na época, que vale citar em nome de umas boas risadas e pela resposta sábia do escritor.

Munido da trama, este que vos fala foi ao Rio de Janeiro descrevê-la em minúcias ao então amigo e exímio contista, com um pedido:

“Rubem, se eu escrever um romance-paródia do mercado editorial — enfim a história do livro inventado, a fraude na Feira de Frankfurt e tudo o que se passou com o mal ajambrado editor —, será que você redigiria o pequeno conto, a obra-prima, que seria inserida como parte do romance, é claro com os devidos créditos à parte que lhe coube?

A resposta de Rubem foi curta e grossa. Continha uma boutade e uma grande lição. Conto-a com suficiente auto–ironia, mas bastante envergonhado, pois faz parte deste momento tão menor da minha capacidade mental, quanto maior do meu ego juvenil.

“Luiz, a obra-prima é o mais fácil de fazer, difícil mesmo é todo o resto.”

Por obra do deus das pequenas coisas, caí em mim naquele exato momento, enfiei minha viola no saco e abandonei o que poderia vir a ser o pior livro sobre o mercado editorial de todos os tempos.

Passados muitos anos, cometi dois livros de contos. Hoje olho para eles e vejo que só consegui falar de silêncio e timidez. Não há descrição de caçadas em meus contos, ou mesmo uma bela cena de amor. Hoje, já sem consternação, reconheço que não saberia fazê-los. Por isso continuo feliz com a minha vida de editor, ainda mais neste momento, tão cheio de novos desafios.
 
* * * * *

( * ) Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Salto

(Cartum de Yuri Ochakovsk. Turkey)

Salto

Salto é a ambição na vida de toda pessoa. Os primeiros saltos
são comemorados na infância pelos pais, depois vem saltos na
escola, no emprego, concursos, pedras no meio do caminho.

A gente vive saltando diariamente. Saltos largos para não falar
com pessoas indesejosas, saltos curtos para não ser percebido,
salto alto na partida de futebol é demonstrar que podia ser um
craque de time famoso.

Salto é um vetor indicando subida na vida, e não é fácil esticar
as pernas diante de um abismo, ou saltar para cabecear uma bola
matando um jogo de futebol. Também os músculos da inteligência
precisam de muitos saltos. Salto é amadorismo, e a conseqüência
é que faz o profissionalismo.

Então, para contradizer o salto para cima, um vencedor salto para 
baixo - o do mergulho!


F Wilson

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Rapidinha.

(cartum de autoria não identificada)

A televisão de três dimensões: forma, informa, deforma.

- Deforma a cabeça, os músculos, as vistas.
- Forma os poderes: executivo, legislativo, judiciário.
- É uma faca de três gumes fatais. 
- Trilhares de pessoas esperam programas educativos.


domingo, 7 de agosto de 2011

Cotidiano

(Foto: André Luís, blog Joka Madruga Photos)


Calcinhas

Alberto sai do banho preso numa toalha cintura abaixo, passa a mão na bunda de Heloísa - só de calcinha, na cozinha, cortando frutas numa saladeira. Chega no quarto e abre a gaveta do guarda-roupa onde estão as peças íntimas do casal. Se assusta, como um banqueiro ao abrir o cofre,  ao ver a gaveta quase vazia.
— Heloísa, onde estão minhas calcinhas, digo, minhas cuecas!?
— Ah, fiz uma reforma no guarda-roupa. Dei para a empregada camisetas, saias, jeans, roupas que não usamos mais. E joguei fora as peças com defeito de uso. Hoje vamos ao shopping, vi numas lojas umas meias arrasadoras, você vai gostar das combinações sexy da moda.
— Não quero moda, quero as calcinhas usadas de volta. Calcinha nova não tem cheiro, nem pelinhos, nem maciez.
— Com o tempo elas vão ganhando cheiro, seu tolo. Se arruma pra gente ir, vi umas cuecas adoráveis numa dessas lojas.

O sentimento de Alberto era de quem presenciava seu cachorro morto, ou de quem teve seu carro roubado, ou de um LP do Bethô nas mãos de um inábil em direção ao toca-disco. 

— A lilás fio-dental, que visual de calcinha! Entrava tão bem nas noites de sábado aqui na nossa cama, não estou encontrando ela aqui!?
— Foi.
— E a roxinha, que apelava no seu dia de gata no cio?
— Também.
— E a branca de rendinha, da lua-de-mel, que guardava o cheiro da sua virgindade?
— ...
— As vermelhonas do TPM?
— As primeiras para a lixeira. Também a preta fio-dental que você disfarçadamente usava para ir ao trabalho, seu maníaco.
— Eu usando suas calcinhas, você está louca!?
— Não, e vê se para de ficar olhando o varal de calcinhas da vizinha do apartamento dos fundos, aquela exibicionista que anda pelada lá debaixo dos cornos do marido dela.
— Ela anda pelada em casa?
— Tá fingindo que não vê? Anda, vamos logo antes que  eu também comece a andar pelada aqui em casa.


F Wilson
    

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Crônica

(Av. Frei Serafim - foto Portal AZ)

Presente de Grego
 
Cineas Santos*

Antes mesmo do aniversário de Teresina (16 de agosto), a cidade recebe e agradece o “presentão”, louvado na mídia local como algo extraordinário. Engana-se quem, porventura, estiver pensando no tal mirante da ponte estaiada, na vigésima “reinauguração” da Potycabana ou em coisa parecida. A cidade está exultante com a inauguração de mais um supermercado na zona leste da cidade. Novidadeiro como ele só, o teresinense atendeu ao chamado do “progresso”: lota o gigantesco estacionamento e faz filas para conferir mercadorias, preços e prazos. Segundo uma cidadã bem-nascida que ostenta, com orgulho, um sobrenome pomposo, “Teresina, finalmente, ganha ares de cidade moderna, livrando-se do rótulo provinciano de Cidade Verde”. Acertou em cheio. Para a construção do novo templo do consumo na capital, derrubaram-se dezenas de árvores centenárias. Da noite para o dia, mangueiras, jaqueiras, oitizeiros e cajueiros foram reduzidos a pó. Onde, até bem pouco tempo, havia um dos clubes mais tradicionais de Teresina, com piscina, campo de futebol e espaçosa área verde, ergueram-se galpões modernosos, com cores berrantes, abarrotados de quinquilharias. Este parece ser o destino de todos os clubes da capital (Flamengo, River, Piauí, Tabajara, Classes Produtoras, etc). 
 
Neste ritmo, em dois ou três anos, não sobrará um.É extraordinário o esforço que os teresinenses vêm fazendo no sentido de despir a capital do tal rótulo “Cidade Verde”, cortesia do escritor Coelho Neto, na década de trinta. Até onde sei, ainda não se fez um levantamento de quantas árvores são derrubadas em Teresina a cada dia. O tal “cinturão verde” da capital, há muito, tornou-se um amontoado de “vilas”, eufemismo usado para designar as favelas da capital. Quintais e chácaras dão lugar a edifícios de nomes sofisticados ou condomínios fechados que usam como chamariz o anzol da “segurança”. O que se vende não é um produto, mas uma ideia, uma grife, uma expectativa que não se cumpre. “Morar bem”, segundo o conceito dos expertos, é enjaular-se num apartamento com ar condicionado em cada um dos cômodos, circuito interno de televisão, porteiro eletrônico toda a parafernália que engorda o faturamento da indústria do medo. 
 
Compreensivelmente, todas as praças de Teresina estão às moscas, exceto as dos shoppings onde existem ar refrigerado e “segurança”. O teresinense já não consegue viver ao ar livre e, a cada dia, vai-se tornando refém do “clima artificial” e do medo que, como diria o poeta, “esteriliza os abraços”. Só assim se explica a sofreguidão com que recebe de braços abertos os presentes de grego que nos chegam a cada dia. Brava gente. Pobre gente.


* Cineas Santos é professor, escritor, editor e proprietário da casa "Oficina da Palavra"
Texto extraído do Blog Kenard Kaverna - "entrem sem bater". Lá veiculado em 09.08.2010.