sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Para a Noite de Natal: Corelli: Christmas Concerto; Op.6/8 -- Freiburger Barockorchester

Caetano Veloso

(Caricatura de Alan Souto Maior - Selecionada no 22º Salão de Humor do Piauí - 2004)

Caetano Veloso - Ilha
 
Miles Davis é um dos maiores gênios do jazz, e eu me considerava pior do que me considero hoje
 
Leio e ouço muita gente falando sobre o disco de Gal. O que me faz muito feliz, sobretudo quando prevejo que, depois de passar um tempo ouvindo “Neguinho”, geral vai passar a ouvir “Miami maculelê” (amo ver a imagem de São Dimas numa versão que rola no YouTube). Sendo que, em casa, sozinhas, algumas pessoas especiais vão ouvir dezenas de vezes “Recanto escuro”, “Tudo dói” ou “Autotune autoerótico”. E outras, mais especiais ainda, “Sexo e dinheiro” e “Madre Deus”. As mais amadas ouvirão o CD todo umas duas vezes por dia. Todo esse otimismo espontâneo — e independente da marra falsa da “Folha de S.Paulo” (que estampou chamadas querendo parecer irreverentes, mas que eram apenas mal escritas) — é justificado. Não preciso nem explicar. Há muita dor e prazer na história e na pré-história desse disco.

Mas, além de dedicar a Marcelinho da Lua, Gonzaguinha (pelo “Lindo lago do amor”), Marcos Valle, KL Jay, Céu, Cibele, Fernanda Porto, The Twelves e tantos outros cujos nomes não me vêm à mente depois de 12 horas trabalhando num tema de Meredith Monk com Pedro Sá no Monoaural — e de não cansar de repetir os agradecimentos a Kassin (cujo disco solo precisa ser ouvido por todos) —, quero falar aqui sobre a foto que está na contracapa do CD.

Foi em 1970. Eu e Gil estávamos exilados em Londres, e Gal foi nos visitar, levando Arnaldo Brandão, cuja festa de aniversário de 60 anos, semana passada, sofri muito por perder (eu estava no turbilhão de viagens que me arrastou neste longo fim de ano). Arnaldo era um cara tão lindo aos 18 que eu fiquei totalmente hipnotizado (e com quem vim a tocar na Outra Banda da Terra, não porque ele fosse lindo, mas porque Vinicius Cantuária me convenceu de que ele era, como de fato era, o cara para tocar baixo numa banda que ia inaugurar o slap nas gravações brasileiras, fato ignorado pelos críticos, que então pensavam que “Muito” era pura bagunça). O segundo festival da Ilha de Wight se anunciava. O primeiro, a que eu tinha assistido, havia sido encerrado com a volta de Bob Dylan depois do acidente de moto. Esse agora o seria por Jimi Hendrix. Liderados por Gil (fechado com Cláudio Prado, que falava inglês tão bem que os ingleses o tomavam por um nativo), fomos acampar na ilha. Uma artista plástica francesa trouxera para nossa barraca uma obra que consistia num enorme vestido vermelho de plástico, uma imensa saia para ser usada coletivamente, as partes superiores saindo dela como chaminés.

Alguém da organização do festival ficou conhecendo Cláudio e terminou convidando esse grupo esquisito de compositores e músicos brasileiros, mais a arte da francesa, para se apresentarem no palco do festival. Assim fizemos. Gal subiu ao palco conosco. Arnaldo também. A turma da francesa parecia um animal elegante de muitas cabeças e troncos. (No documentário sobre a Tropicália que está para ser lançado, há uma cena em que apareço cantando “Shoot me dead” acompanhado por Gil.) No fim da apresentação, a turma que vestia o plástico vermelho tirou a roupa. Um jornalista da “Rolling Stone” americana veio me procurar depois e me perguntou: “Quem são vocês?!” Na resenha do primeiro dia do festival, eles disseram que os brasileiros estavam entre as melhores coisas, acima da “psychedelic musak”.

Ganhamos botões dourados que nos davam direito a assistir aos shows do chiqueirinho reservado para a equipe de filmagem. Me lembro de ter visto um show deitado no chão ao lado de (e conversando com) David Gilmour. Por causa desses botões, Gil e eu pudemos atender prontamente ao chamado do apresentador: “Compositores brasileiros Gilberto Gil e Caetano Veloso, Miles Davis os chama ao backstage.” Era Airto, que tocava com Miles. Mas Miles me agarrou pelos ombros e ficou me fitando por longo tempo, com Airto pulando e gritando em volta. Sussurrando, Miles me disse: “Quero ouvir sua música”. Parecia uma paquera. Eu não queria mostrar minha música a Miles Davis: ele é um dos maiores gênios do jazz, e eu me considerava pior do que me considero hoje.

Pois bem, Gal, no auge de sua beleza de vanguarda, tomou uma mescalina e ficou apavorada p o rq u e s e v i a com segundos de antecedência, ou seja, se via no futuro próximo, coisa para ser estudada pelos neurocientistas do livro de Gianetti, mais do que pelos místicos que pensam que já sabem qual é o lance. Mas a sincronicidade — esse conceito de Jung que atraiu Sting e Augusto de Campos (para não falar na torcida do Flamengo) — fez uma aparição gloriosa no nascedouro de “Recanto”. Quando eu decidi que faria o disco, recebi um e-mail de David Linger, que mora em São Francisco e nada sabia dos meus planos, com uma fotografia em que Gal e eu aparecemos na Ilha de Wight. Fiquei impressionado. Quis essa foto na contracapa do CD. Falei com Gilda Midani, a quem eu convidara para fazer a capa e, apesar de problemas de liberação de direitos por parte da moça americana que tirou a foto (David a localizou), meu sonho terminou se realizando. Gal, eu e toda a turma vimos Hendrix, Leonard Cohen, The Doors, Emerson Lake & Palmer, Joni Mitchell, uma pá de gente. E bem de perto. Era a cena da época. Sabíamo-nos dentro dela, atravessados pela hegemonia anglo-americana da cultura de massas. Mas tínhamos (consciente ou inconscientemente) de nossa provinciana realidade uma visão que apontava — e ainda aponta — para grandezas que superariam (superarão?) a estrutura dessa cena já engessada. 


Jornal O Globo, 18/12/2011 

domingo, 18 de dezembro de 2011

sábado, 17 de dezembro de 2011

Feliz Ano Novo



CRIMES SEM CASTIGO - SÉRGIO AUGUSTO

Nesta quinta-feira uma das agressões mais vergonhosas à cultura brasileira completou 35 anos. Em 15 de dezembro de 1976, o então ministro da Justiça do governo Geisel, Armando Falcão, com base na Portaria n.º 8, 401-B, proibiu a circulação e venda em todo o território nacional do quarto livro de contos de Rubem Fonseca, Feliz Ano Novo, sob a alegação de que suas histórias exteriorizavam "matéria contrária à moral e aos bons costumes". Foi o maior presente natalino da ditadura militar ao obscurantismo naquele ano, de resto farto em abusos censórios.

A agressão chegou com pouco mais de um ano de atraso. Parafraseando o Millôr, nas ditaduras fardadas, "a justiça farda mas não talha". Best seller desde o lançamento, pela editora Artenova, em outubro de 1975, e já na terceira reimpressão, o livro de Rubem Fonseca desapareceu subitamente das livrarias. E desaparecido ficou até 1989. Treze meses para ser proibido, 13 anos para ser liberado. A proibição de Feliz Ano Novo foi o mais longamente discutido escândalo lítero-jurídico do regime militar.

Para quem não o leu (a Nova Fronteira reeditou-o este ano): são 15 contos que espelham, sem rebuços, a violência urbana, especificamente no Rio, já uma cidade sem lei e cindida por malignas desigualdades sociais, que nas quatro décadas seguintes só iria piorar. O autor merecia um prêmio qualquer por sua profética crueza, não a perseguição que lhe moveu o mais repugnante ministro da Justiça desta república, ex-aequo (e ex-equus) com Alfredo Buzaid, ocupante da pasta no governo Médici.

Ao cobrir o livro de elogios, na Veja, Affonso Romano de Sant’Anna fizera uma ressalva involuntariamente premonitória: "uma leitura superficial desta obra pode tachá-la de erótica e pornográfica". Como leitor superficial era o que mais havia nos altos escalões da ditadura, tachado de obsceno e pornográfico o livro entrou no index prohibitorum dos milicos.

Um manifesto "pela liberdade de expressão", assinado por 1.046 intelectuais, reagiu de pronto ao ucasse do dr. Falcão. Juristas questionaram a falta de embasamento legal da Portaria, "uma ação profundamente farisaica", protestou o sempre veemente psicanalista Hélio Pellegrino. Pelos critérios invocados para justificar a cassação de Feliz Ano Novo, salientou o poeta Gerardo Mello Mourão, as obras de Dante, Cervantes, Goethe, Shakespeare e outros gigantes da literatura mundial também deveriam ser tiradas de circulação.

Da trincheira oposta, uma patética saraivada de festim. A um repórter que ingenuamente contava com sua solidariedade a Rubem Fonseca, o escritor cearense Nertan Macedo, áulico da ditadura e então assessor do ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen, declarou "ignorar o assunto"; de propósito, "para não fazer publicidade de autores idiotas". Com intelectuais assim, para que censores?

No mesmo dia, o nada saudoso senador potiguar Dinarte Mariz, folclórica figura da Arena, partido oficial do governo, não só se revelou espantado e arrepiado (sic) com os contos de Feliz Ano Novo ("pornografia de baixíssimo nível, que não se vê hoje nem nos recantos mais atrasados do país"), como propôs que Rubem Fonseca, além de censurado, fosse preso.

Em 2 de maio de 1977, Rubem Fonseca ajuizou ação ordinária contra a União, reclamando a ilegalidade do ato arbitrário e pleiteando sua anulação. O pedido foi julgado improcedente. Três anos depois, os advogados do escritor apelaram da sentença no Tribunal Federal de Recursos. Obrigada a explicar-se, a Censura alegou que Feliz Ano Novo retratava, "em quase sua totalidade, personagens portadores de complexos, vícios e taras, com o objetivo de enfocar a face obscura da sociedade na prática da delinquência, suborno, latrocínio e homicídio, sem qualquer referência a sanção, utilizando linguagem bastante popular e onde a pornografia foi largamente empregada, com rápidas alusões desmerecedoras aos responsáveis pelos destinos do Brasil e ao trabalho censório".

Resumindo: crime só com castigo - elogios aos agentes da lei.

Convocado a avaliar o arrazoado da Censura, o crítico literário Afrânio Coutinho não deixou de pé uma só aleivosia. Em seu parecer, transformado em livro sobre literatura e erotismo, editado pela Cátedra, eximiu Rubem Fonseca de qualquer transgressão à lei: "O fato de usar quadros da vida real - sexo, violência, miséria - não quer dizer que ele os aprove ou desaprove. Simplesmente descreve-os, testemunha-os, usando, para ter mais eficiência artística, todos os recursos que a arte literária antiga e atual coloca à sua disposição".

Dois procuradores da República e um juiz, cujos nomes merecem ser esquecidos, socorreram a arbitrariedade do governo com novo estoque de despautérios, acusando o escritor de "dar voz a conversas de subgente", a "tipos patológicos" cujas atividades poderiam levar "certos leitores a cometer atos de natureza degradante". Quando o caso ainda estava sub judice no Tribunal Federal de Recursos, Deonísio da Silva publicou um ensaio a respeito, O Caso Rubem Fonseca: Violência e Erotismo em ‘Feliz Ano Novo’ (Alfa-Ômega, 1983), que forma, com o parecer do professor Afrânio Coutinho, um autêntico J’Accuse tupinambá.

Para defender a liberdade de Rubem Fonseca escrever como bem entendesse, seus advogados tiveram de esperar o fim da ditadura. Aí apelaram para o Tribunal Regional Federal, instância criada pela Constituição de 1988, onde, por dois votos a um, ou seja, jogo duro até o fim, o livro foi liberado em 1989. De volta às livrarias, como sói acontecer, vendeu horrores. Nada supera o marketing da censura.


Texto extraído do blog Conteúdo Livre (17/12/2011)



Curtinha.

(Cartum de Mohammad Kargar - Iran)

 Decolando para as férias...

Salto

(Cartum de Yuri Ochakovsk. Turkey)

Salto

Salto é a ambição na vida de toda pessoa. Os primeiros saltos
são comemorados na infância pelos pais, depois vem saltos na
escola, no emprego, concursos, pedras no meio do caminho.

A gente vive saltando diariamente. Saltos largos para não falar
com pessoas indesejosas, saltos curtos para não ser percebido,
salto alto na partida de futebol é demonstrar que podia ser um
craque de time famoso.

Salto é um vetor indicando subida na vida, e não é fácil esticar
as pernas diante de um abismo, ou saltar para cabecear uma bola
matando um jogo de futebol. Também os músculos da inteligência
precisam de muitos saltos. Salto é amadorismo, e a conseqüência
é que faz o profissionalismo.

Então, para contradizer o salto para cima, um vencedor salto para 
baixo - o do mergulho!


F Wilson

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Rapidinha.

(cartum de autoria não identificada)

A televisão de três dimensões: forma, informa, deforma.

- Deforma a cabeça, os músculos, as vistas.
- Forma os poderes: executivo, legislativo, judiciário.
- É uma faca de três gumes fatais. 
- Trilhares de pessoas esperam programas educativos.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tarântulas


Por João Luis Rocha do Nascimento*
 
O TRIELO
 
BLONDIE
 
 
DE ONDE VEM 
Um ponto no infinito. É o que a objetiva capta quando a cortina se abre. Quando avança lentamente uma imagem trêmula surge no canto. Sob um sol causticante. Um só corpo é o que parece ser. Quando se fecha aí se vê. Não é o que se pode chamar exatamente de marcha lenta. Movem-se por inércia. Não são as patas que removem os grãos é que as impulsionam. Os joelhos já não dobram mais.
 
PARA ONDE VAI
Eles avançam. No desfiladeiro se deixam arrastar sob o olhar atento de um caramujo do deserto que enterra a cabeça na areia aos primeiros gritos do coiote. Tão descarnados. Tão sedentos. Difícil dizer quem é homem quem é montaria.
 
QUAL O SEU NOME
Desviada para o lado esquerdo a cabeça baixa pela força gravitacional abandonou o movimento do pêndulo. O chapéu mais ainda. Não impedem que o sol siga abrindo crateras. O charuto no canto da boca o barulho do vento na noite passada apagou.
 
NINGUÉM JAMAIS SOUBE
Ainda assim ele segue. As rédeas seguram a mão esquerda. Mas não se engane quem vê a outra dormindo sobre o coldre. Está atenta. E formigando.
Vamos. Faça o meu dia.
 
TUCO
A natureza não foi generosa. Mas a ele deu ouvidos atentos que, à distância, ajudavam-no a distinguir os diferentes sibilos da serpente. Com os olhos, sempre piscando e girando de um lado a outro, à frente, movimentava-se em silêncio. Fez-se intimo do calor do deserto, provou do veneno do escorpião, e sobreviveu. A dignidade, esta se foi cedo. Do pai, nunca soube. Da mãe, não se recorda do dia em que a viu sóbria. Mas nada disso importa agora. A vida cuidou de fechar-lhe o coração, deixando-o duro como uma rocha. Não fosse pelo ar de desamparo que, quando descuidado, denunciava o sofrimento e a amargura, não seria arriscado dizer que nunca perdia o bom humor. Alguma dor que não tivesse experimentado? Não. Por isso, viver com a corda no pescoço fazia parte do jogo, mesmo quando não havia um anjo louro à retaguarda.
 
OLHOS DE ANJO
Quando cavalgava, mantinha curtas as rédeas e tesos o pescoço e a cabeça do Puro Sangue, o que conferia mais elegância ao trote. Uma raposa, cujos olhos miúdos brilhavam com o tirilintar de moedas de ouro. O chapéu, não exatamente negro, escondia a calvície avançada. O cachimbo, quando preso a um dos cantos da boca, tinha outras utilidades. Assim como para suas reflexões, usava-o também para destilar o veneno que expelia com um olhar contido. Botas e esporas lhe proporcionavam um caminhar firme e pausado. A mão direita, sempre próxima ao coldre invertido e do lado oposto, chamava atenção pelo dedo médio, cuja falange fora decepada com um punhal pelo próprio pai quando ele ainda era uma criança inocente. Não agia por ódio ou ressentimentos. Pragmático. Matar era apenas um negócio, o que não impedia de exercer o ofício com rigor excessivo e sangue-frio. Por isso a frieza no olhar, a impressão de que quase não respirava, a crueldade sem limites. Mas, sejamos justos: ninguém podia acusar-lhe de que não cumpria sua parte nos tratos, mesmo que para isso tivesse que se portar como agente duplo.
 
 
* Texto extraído do blog Confraria Tarântula. Postagem feita lá: segunda-feira, 5 de dezembro de 2011.

Charge do Dia - J Bosco - "ministérios".


  
Extraído do blog Lápis de Memória. Lá postado em 06/12/2011


domingo, 4 de dezembro de 2011

Poesia do dia-a-dia


Ah, tempo de escuridão e seus dezesseis movimentos
De frase dura, pedra desfeita na ação do esmeril
De eros farto em pele de avelã e aviamento
Farinha e café sobre a mesa de cristal e taça
Só a minha vertigem a traduzir-se
Numa parte que é transbordamento
Outra exclusão.

A primeira pessoa predomina nas folhas que rumorejam
E não quero saber da linguagem improdutiva
Nem no poema que se resolve a luz do olhar
Ou no sopro dos dedos que foi chacal e lobo voraz
O meu poema é minha fala e minha audição
O meu poema, antes, é nada, nada
E os cavaleiros partem no beijo de nuvens
Na doideira elétrica de Artaud.

Assim prefiro construir a sétima margem do rio flores
Sem ter horário fixo e londrino
O meu horário é o meu sertão
Sem neve cor de chumbo
A minha neve é a minha nódoa
E os cavaleiros partem no beijo de nuvens
Na doideira elétrica de Artaud.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Rock Progressivo

(Capas dos cds. Montagem deste blogueiro)


"Homebrew" é uma coletânea musical de Steve Howe em quatro cds, reunindo o que esse guitarrista da banda YES produziu de melhor em trabalho solo nos anos oitenta e noventa. A técnica e inspiração de Steve Howe se consolidou no rock progressivo, período de ouro desse estilo de rock que marcou a música na primeira metade dos anos setenta no mundo.

Howe é um dos mais talentosos guitarrista de rock de todos os tempos, sua criatividade se desenvolve ao som do violão, violino, viola, cello, fagote, flauta e aboé. E esse conhecimento da música clássica só amplia o estilo rock progressivo.

Para quem gosta do bom rock, taí a viagem.

F Wilson

* Esses cds estão disponíveis para download no blog zinhof. (a senha para descompactuar o download é: zinhof)  
 

domingo, 27 de novembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Rock Progressivo


Neuschwanstein ou o castelo progressivo

Chego em casa nesse final tarde. Como é sexta-feira, meus olhos escalam pilhas de cds em idas de subidas e descidas na estante, e de repente um instinto animal dirige meus dedos a retirarem um deles: "Neuschwanstein - Battlement - 1978". 

Eu já ouvira esse cd há uns quatro anos, rapidamente, sem chance de ouvi-lo novamente. Apesar de não ter dado muita atenção, algo na música me incomodou o suficiente para gravar num cdzinho pirata a produção desse grupo alemão para ouvi-lo numa ocasião propícia - só gente que gosta de música guarda essas coisa para apreciá-la sabe qual dia.

Na verdade, quando eu vinha para casa, da escola onde trabalho, pertinho, a pé, vinha pensando na ascensão e, digamos, decadência do rock progressivo. Orquestras me lembraram do "Yes", "Emerson, Lake & Palmer", "Jean-Luck ponty" e tantos outros grandes desse estilo virtuoso que marcaram os anos setenta. Mas tudo se convergia para um desconhecido grupo alemão de 1978.

Ora, essa era uma época onde a onda "dance music" contagiava o mundo inteiro. O Rock Hard,  o Jazz, a MPB, o Samba e outros tantos estilos musicais estavam sendo sacrificados pela "Discoteca", a moda, a onda do momento - final dos anos setenta.

Raras foram as heróicas gravadoras que se atreveram a gravar estilos roqueiros em "desuso" pelo público. Final dos anos setenta, surgiu atravessando como dinamitando pistas das discotecas, grupos como o canadense "Rush". E dos escombros da discoteca, uma poeira se levantava descortinando o estilo rock heavy metal.

Acredito ter esse grupo alemão  "NEUSCHWANSTEIN"  contribuído, até onde se oportunizou, enriquecido a música, gerações que ainda estão para ouvir esse som que vale a pena.   

F Wilson

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

sábado, 22 de outubro de 2011

Jazz!




Eu já ouvira esse cd há uns dois anos, lembro ter escutado numa manhã enquanto amarrava o tênis nos pés para ir ao trabalho. Acabei esquecendo-o nos meus arquivos. Agora me deparo na página de um blog esse trio jazístico - (superlativos sempre causam discussões, melhor ficar nos relativos).

Então, para quem gosta do bom jazz, eis aí o melhor (êpa) guitarrista do mundo, o melhor baixista (outro êpa), e mais um êpa para uma bateria sensacional.

* Link para download no blog: p.q.p.bach

f wilson

John McLaughlin na guitarra, Jaco Pastorius no bass, e Tony Williams na bateria. Faixas 1 a 5 gravadas em 3 de março de 1979, no Teatro Karl Marx de Havana, Cuba. Faixas 6 a 10 gravadas cinco dias depois, em Nova Iorque. Edição de 2007 da Legacy. Grande abraço.

Músicas

01 Drum Improvisation (Williams)
02 Dark Prince (McLaughlin)
03 Continuum (Pastorius)
04 Para Oriente (Williams)
05 Are You the One, Are You the One? (McLaughlin)
06 Dark Prince
07 Continuum
08 Para Oriente [alt take one]
09 Para Oriente [alt take two]
10 Para Oriente

dia-a-dia


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

domingo, 16 de outubro de 2011

sábado, 24 de setembro de 2011

PINK FLOYD - The Dark Side Of The Moon - Experience Version

PINK FLOYD - The Dark Side Of The Moon - Experience Version [Original recording remastered] (2011)


















Então vem a discussão, qual o melhor: studio ou ao vivo? acústico ou banda? sol ou sombra?
A questão ultrapassa a individualidade estilística e também o subconsciente acomodado nas emoções de quem assistiu a algum show motivado pelo momento.

Ora, um disco em estúdio, primeiro, espera a inspiração desejada dos seus sarcerdotes. O chato é que até a inspiração precisa de materialização. Então: qual momento a bateria vai evoluir ou sumir, o baixo-contínuo que vai apresentar o acorde necessário,  a guitarra (geralmente líder) vai apresentar sua genuína arte da fuga, o teclado vai resplandecer o produto artístico em consumo etc.

Ao vivo pode ser melhor  porque o público consagra o cantor ou grupo. Mas a música em si já está materializada, claro, os músculos de uma sinfonia seguram séculos de arte.

Link para download, porque o "blogger.com." me ameaçou, agora só vou indicando o link onde a arte está hospedada: no blog zinhof (é só abrir a janela do google.)

DISC 1 - 2011 Remaster:
01. Speak To Me 02. Breathe (In The Air) 03. On The Run 04. Time 05. The Great Gig In The Sky 06. Money 07. Us And Them 08. Any Colour You Like 09. Brain Damage 10. Eclipse

DISC 2 - Live at Wembley 1974 (2011 Remaster):
01. Speak To Me 02. Breathe (In The Air) 03. On The Run 04. Time 05. The Great Gig In The Sky 06. Money 07. Us And Them 08. Any Colour You Like 09. Brain Damage 10. Eclip


F Wilson




Bruna Lombardi

(foto: terra.com)

Dia desses topei numa rua do centro com uma ex-aluna. Ela estava suadinha, eu também com parte da camisa molhada - é calor em Teresina. Ela me perguntou sobre um certo poema da Bruna Lombardi que um dia foi tema de discussão em sala de aula. Eu havia esquecido do texto, mas ela me lembrou da personagem do poema, uma adolescente...

Ao chegar em casa procurei nas estantes o livro “O perigo do dragão”, mas não encontrei - vivo emprestando meus livros. Apelei para umas agendas antigas. Enfiado entre páginas de uma delas estava lá, copiado de bic azul, o texto datado há mais de dez anos.

No quadro de giz eu copiava o poema - esse eu sabia de cor - durante as aulas de redação, e o poema fazia bastante efeito entre alunos adolescentes que liam em silêncio, reliam sorrindo, até a  sala ficar sem controle de voz, todos queriam dizer ou perguntar sobre o poema. Devo dizer que de propósito eu trocava o pronome, no poema, "ele" por "ela".


Lúbrico

Você vai logo perceber que ele não é uma pessoa fácil
um temperamento horrível, me diziam.
e eu escrevia o nome dele secretamente
nas vidraças, nos elevadores, nos banheiros de cinemas.
Você sabe que eu também às vezes fico insuportável
com essa mania de querer o impossível
mas devia existir uma brecha nos nossos destinos
que permitisse um encontro num quarto de hotel qualquer
uma vez na vida, furtivos e ordinários
uma vez e pronto - horas roubadas.

Não tive nunca jeito de fazer essa proposta
e ele talvez nunca soube o que eu queria
carrego o lado oculto de um desejo
passo por ele, sorrio, digo bom-dia

Bruna Lombardi em "O perigo do dragão"

Jimi Hendrix - dois álbuns ao vivo relançados


Levei um tremendo susto quando vi no blog ZINHOF esses dois álbuns do Jimi Hendrix gravados ao vivo: Hendrix in the West e Live at Winterland. Susto agradável que faz estimar até aquele melhor inimigo na rua e lhe dar bom dia.

São novas edições, Hendrix in the West foi lançado em 1978 e Live at Winterland em 1987. Agora se juntaram num acordo de licenciamento de oito anos a Sony Music e a Experience Hendrix - que administra o espólio do músico.

Live at Winterland tem 35 faixas, distribuídas em quatro CDs, ou oito LPs, com 35 faixas, um livreto de 36 páginas e uma entrevista em áudio. Todo o material foi gravado nos seis shows realizados em três dias no Winterland Ballroom, em San Francisco, em outubro de 1968.

Já o relançamento de Hendrix in the West  tem 11 músicas, adicionando três faixas bônus às oito do lançamento  original, em um CD ou dois LPs, acompanhado de um livreto de 24 páginas, com imagens inéditas fotografadas por Jim Marshall.

A Legacy Records ainda prepara dois DVDs. Um deles é uma re-edição de Blue Wild Angel: Jimi Hendrix at the Isle of Wight, de 2002, e o outro se chama Jimi Hendrix: The Dick Cavett Show e será uma compilação de todas as participações do músico no programa de TV de Dick Cavett.

Os cds estão disponíveis nas lojas desde 13 de setembro.
Links para download deixam as gravadoras nervosinhas, então, para baixar os cds dirija-se ao blog zinhof (em postagem de 15.09.2011).
 Confira abaixo a lista de faixas.

    Live at Winterland:
    Disco 1 – 10/10/68 Winterland Ballroom, San Francisco
    01. "Tax Free"
    02. "Lover Man"
    03. "Sunshine of Your Love"
    04. "Hear My Train A Comin"
    05. "Killing Floor"
    06. "Foxey Lady"
    07. "Hey Joe"
    08. "Star Spangled Banner"
    09. "Purple Haze"

    Disc 2 – 11/10/68 Winterland Ballroom, San Francisco
    10. "Tax Free"
    11. "Like a Rolling Stone"
    12. "Lover Man"
    13. "Hey Joe"
    14. "Fire"
    15. "Foxey Lady"
    16. "Are You Experienced"
    17. "Red House"
    18. "Purple Haze"

    Disco 3 – 12/10/68 Winterland Ballroom, San Francisco
    19. "Fire"
    20. "Lover Man"
    21. "Like a Rolling Stone"
    22. "Manic Depression"
    23. "Sunshine of Your Love"
    24. "Little Wing"
    25. "Spanish Castle Magic"
    26. "Red House"
    27. "Hey Joe"
    28. "Purple Haze"
    29. "Wild Thing"

    Disco 4 (bônus) - Winterland Ballroom, San Francisco
    30. "Foxy Lady"
    31. "Are You Experienced"
    32. "Voodoo Child (Slight Return)"
    33. "Red House"
    34. "Star Spangled Banner"
    35. "Purple Haze"
    36. Jimi Hendrix: Boston Garden Backstage Interview

    Hendrix In The West Tracklist:
    01. "The Queen"
    02. "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band"
    03. "Little Wing"
    04. "Fire"
    05. "I Dont Live Today"
    06. "Spanish Castle Magic"
    07. "Red House"
    08. "Johnny B. Goode"
    09. "Lover Man"
    10. "Blue Suede Shoes"
    11. "Voodoo Child (Slight Return)"

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Charles Bukowski

Charles Bukowski - caricatura de J Bosco)
Cartas na Rua

A temporada de chuvas começou. A maior parte do dinheiro era consumida em bebidas, e por isso meus sapatos tinham furos nas solas e minha capa de chuva estava rasgada e velha. Em qualquer chuvarada mais forte eu me molhava pra valer: ficava com as cuecas e as meias empapadas de água. 
(...)
Quando as suas cuecas molham, deslizam e deslizam bunda abaixo, um aro molhado, seguro apenas pelo cavalo das calças. A chuva borrava os endereços de algumas cartas, o cigarro não ficava aceso. Você  tinha de ficar remexendo continuamente as revistas no fundo do malote. Era só o começo, e eu já estava cansado. Meus sapatos tinham virado uma torta de lama e pareciam botas. A cada dois passos, eu pisava em algo escorregadio e quase ia pro chão.
 Uma porta se abriu, e uma mulher idosa perguntou aquilo que perguntavam cem vezes ao dia:
-- Onde está o carteiro de sempre?
-- Dona, por favor, como vou saber?  Como posso saber? Eu estou aqui, e ele está em outro lugar!
-- Ah, você é bem valentão!
-- Valentão?
-- É.
Ri e pus uma carta empapade de chuva na sua mão. Toquei pra seguinte. Quem sabe lá em cima será melhor, pensei.
Uma outra tia, querendo ser gentil, me convidou:
-- Você não gostaria de entrar, tomar uma xícara de chá e secar as roupas?
-- Dona, não percebe que não temos tempo sequer pra segurar as cuecas?
-- Segurar as cuecas?
-- Sim, SEGURAR AS CUECAS! - berrei, e sumi de baixo de uma cortina de água.
(...)
Chegou um momento em que eu estava tão molhado que pensei que estivesse me afogando. Havia uma varanda resguardada, fiquei lá e dei um jeito de acender um cigarro. Tinha dado umas três tragadas quando ouvi a voz de uma velhinha bem atrás de mim:
-- Carteiro! Carteiro!
-- Sim, vovó? -- Perguntei.
-- Sua correspondência está se molhando!
Olhei pra mala, e , com toda razão, eu tinha deixado a tampa de couro aberta. Algumas gotas tinham caído de um buraco do teto. 
(...)


Charles Bukowski: "Cartas na Rua"


domingo, 4 de setembro de 2011

O conto policial

(René Magrite, A modelo vermelho. Pintura de 1935)


"Numa história policial, permitam-me repetir, sabemos da ocorrência do crime, conhecemos a vítima, mas não sabemos quem é o criminoso. Neste crime perfeito todos saberão logo quem é o criminoso e terão que desobrir qual é o crime e quem é a vítima. Eu apenas mudei um dos dados do teorema."
"Quem é o criminoso, afinal?", pergunta Voos.
"Eu", diz Winner.

.   .   .


"Uma porcentagem imensa de escritores escreve sem ter noção exata do seu ofício, por isso existe tanta porcaria disfarçada em literatura. Agora, nós que já ensinamos literatura - não importa que tenha sido num colégio secundário de Newton, Massachusetts, como eu, ou em Princeton, como o verdadeiro Winner -, nós sabemos o que estamos escrevendo, mesmo quando é também uma porcaria."

Rubem Fonseca no conto "Romance Negro"

Henri Miller

 (foto de autoria desconhecida)

 "Existe uma classe de homens resistentes, antiquados o suficiente para se terem mantido asperamente individuais, abertamente desdenhosos da moda, apaixonadamente dedicados a seu trabalho, imunes ao suborno e à sedução, que trabalham longas horas, muitas vezes sem recompensa ou fama, que são motivados por um impulso comum: a alegria de fazer o que bem entendem. Em algum momento ao longo do trajeto eles se destacaram dos outros. Os homens de que estou falando são identificáveis a um mero olhar: seu rosto registra algo muito mais vital, muito mais eficiente que a sede de poder. Eles não procuram dominar, mas realizar-se. Operam a partir de um centro que está em repouso. Evoluem, crescem, alimentam só por serem o que são."

Henry Miller em “Pesadelo Refrigerado”

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Vitória

(Foto: blog flickr - www.flickr.com/photos/andre_lira)

Quarto dia de protesto, hoje, em Teresina, dos estudantes contra o aumento da passagem de ônibus coletivo terminou na imagem desgastada do prefeito Helmano Ferrer revogando o decreto que autorizava o aumento da passagem de R$ 1,90 para R$ 2,10, por um mês.

Depois de tantos anos sucessivos de aumento na passagem de ônibus, de prefeitos aceitando passivamente o valor estipulado pelos empresários, de protestos tímidos que acabavam em revolta silenciosa, este ano os estudantes foram às ruas organizados, decididos, atuando nos horários e em pontos estratégicos que alertassem a população. 

Não deu outra. O prefeito vendo a população agonizar no trânsito da avenida Frei Serafim na hora do rush por causa dos protestos, o assunto ampliando espaço na mídia, depredação, incêndio de ônibus na avenida. A arrogância do prefeito no início dos protestos deu lugar a uma cara de voz baixa suspendendo o aumento por um mês. Pedido de trégua, não ainda de penico.

F Wilson   

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Charges de Paixão

Paixão - Jornal Gazeta do Povo. Publicado em 23/08/2011  


Paixão - Jornal Gazeta do Povo. Publicado em 24/08/2011

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

sábado, 13 de agosto de 2011

Charges de Sponholz





* Charges copiadas do blog do autor: http://www.sponholz.arq.br/

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Nani Humor


Kama Sutra

Criado o dia do hétero

* Charges retiradas do blog do autor.


domingo, 7 de agosto de 2011

Cotidiano

(Foto: André Luís, blog Joka Madruga Photos)


Calcinhas

Alberto sai do banho preso numa toalha cintura abaixo, passa a mão na bunda de Heloísa - só de calcinha, na cozinha, cortando frutas numa saladeira. Chega no quarto e abre a gaveta do guarda-roupa onde estão as peças íntimas do casal. Se assusta, como um banqueiro ao abrir o cofre,  ao ver a gaveta quase vazia.
— Heloísa, onde estão minhas calcinhas, digo, minhas cuecas!?
— Ah, fiz uma reforma no guarda-roupa. Dei para a empregada camisetas, saias, jeans, roupas que não usamos mais. E joguei fora as peças com defeito de uso. Hoje vamos ao shopping, vi numas lojas umas meias arrasadoras, você vai gostar das combinações sexy da moda.
— Não quero moda, quero as calcinhas usadas de volta. Calcinha nova não tem cheiro, nem pelinhos, nem maciez.
— Com o tempo elas vão ganhando cheiro, seu tolo. Se arruma pra gente ir, vi umas cuecas adoráveis numa dessas lojas.

O sentimento de Alberto era de quem presenciava seu cachorro morto, ou de quem teve seu carro roubado, ou de um LP do Bethô nas mãos de um inábil em direção ao toca-disco. 

— A lilás fio-dental, que visual de calcinha! Entrava tão bem nas noites de sábado aqui na nossa cama, não estou encontrando ela aqui!?
— Foi.
— E a roxinha, que apelava no seu dia de gata no cio?
— Também.
— E a branca de rendinha, da lua-de-mel, que guardava o cheiro da sua virgindade?
— ...
— As vermelhonas do TPM?
— As primeiras para a lixeira. Também a preta fio-dental que você disfarçadamente usava para ir ao trabalho, seu maníaco.
— Eu usando suas calcinhas, você está louca!?
— Não, e vê se para de ficar olhando o varal de calcinhas da vizinha do apartamento dos fundos, aquela exibicionista que anda pelada lá debaixo dos cornos do marido dela.
— Ela anda pelada em casa?
— Tá fingindo que não vê? Anda, vamos logo antes que  eu também comece a andar pelada aqui em casa.


F Wilson
    

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Tarântulas

(foto de autoria desconhecida)

Por M de Moura Filho


HELENA

Ao contista J. L. Rocha do Nascimento

"Não é por que sei que ela não virá que não vejo a porta já se abrindo"
Meu mundo ficaria completo (com você), por Nando Reis

A princípio, bêbado, o peso do mundo sobre sua cabeça, enquanto na cama, o torpor, e a evocação de Helena. Chamou-a até dormir. E teve a impressão de que ela viera, em sonho. Linda, estava como da última vez que a vira. Pareceu-lhe que reatada a linha do tempo, abruptamente interrompida com o sumiço de Helena. Ou tudo teria sido realidade? Sentia o sabor do batom que Helena costumava usar. O costado da mão convenceu-lhe do sonho.
 
Então, no dia seguinte, um amigo deu-lhe notícia de Helena. Estava na cidade, para casar com um colombiano de nome Pablo. Disfarçou o desapontamento, dizendo que agora ela cantaria boleros em espanhol impecável. O jornal, atirado pelo amigo, foi duro golpe. Ali estava ela, feliz. Foi para casa, e ouviu La Puerta repetidamente, ignorando brados de vizinhos, impassível, absorto na imagem daqueles olhos felizes e amendoados. E naquele dia não dormiu propositadamente, para sonhar com Helena, que esteve presente com ele a noite toda, revirando a cama e queimando lençóis, e, ao sol parir, aflautando canções de Chico, como costumeiramente fazia nas manhãs, depois de noites báquicas.
 
Então, escreveu: “Não dormi. Helena também não.”
Não procurou Helena. Nada, nada mesmo, tinha a lhe falar. Disse a si mesmo: estava morta. Evitou os jornais por uns dias. Debruçou-se sobre o projeto pendente, por horas a fio, todos os dias, varando a noite frente ao Autocad. E a vida seguiu seu curso, com mudanças de estações e com Maria, Rosângela, Eliza, Ana, Alice, Sônia, Edna, Lindalva, Carol, Sueli, Jaqueline, Luciana, Luíza, Teresa, Marta e...
 
Bêbado, em uma noite, lembrou-se de Helena. Evocou-a até adormecer. E Helena veio. Com ela, a chuva. Viram-na lavar a janela, e desenharam desejos no frio do vidro. Da varanda, viram, enublado, o rio, e dele não exalava a fedorentina de sempre. A cidade acordava quando ela foi embora. Viu sua imagem desfazer-se no canto do quarto, com a certeza de que sonhara. Depois, adormeceu com o cheiro de sexo emanando de seu corpo. Acordou pelos toques do telefone. Tarcísio, excitado, perguntou-lhe se já tinha visto o jornal. Não, respondeu. Então, soube que Helena estava na cidade, com o marido e a filha, Maria. Agradeceu ao amigo. Sonolento, mas praguejando por ter sido acordado para uma notícia que já sabia, pegou os jornais. Todos anunciavam a estadia de Helena na cidade. A mãe, doente, interrompera a administração da família em próspero comércio. Brincou com a situação. Disse que lamentava não ter sido poeta romântico, e morrer, depois de contrair a mycobacterium tuberculosis, apaixonado.
 
 
*Texto extraído do blog Confraria Tarântula. Postagem lá feita em 17/07/2011.

domingo, 31 de julho de 2011

Poesia - Moura Filho


O poeta Francisco Moura Filho vai estar lançando seu novo livro: Pequenos Versos... Grandes Reflexões. É o segundo livro do poeta. O primeiro Esperança Ainda Sombria foi comentado no Bate Papo Literário no Salipi de 2010.
O encontro será no dia 03 de agosto na Casa da Cultura, na Praça Saraiva.
Estarei lá, poeta Moura.

Abaixo uma poesia do livro Esperança Ainda Sombria.

Da Costa e Silva

O sangue que corre
nas minhas veias,
não é o sangue que pisa
nas minhas costas.
É o sangue da minha vida sofrida.
Não é sangue de Da Costa e Silva.
(Francisco Moura Filho)

Ferreira Gullar


* Post no Blog do Solda Caustico em 28/07/2011

sábado, 30 de julho de 2011

sexta-feira, 29 de julho de 2011

quinta-feira, 28 de julho de 2011

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Gente e Humor

(A. Tito Filho, por Netto)
Valdemar Sandes e Francisco César de Araújo

H. Dobal, o magnífico poeta que o Piauí deu à literatura nacional, versejou assim:

Diante da notícia
do inimigo mordido
por jararaca,
Carlindo Moreira
filosofou mansamente:
— Dou mais pela cascavel.

Era tempo ruim para os professores do Piauí. Pagava-lhes mal o governo. Padeciam atraso de três, quatro meses no recebimento dos magérrimos ordenados mensais. O jeito estava no sacrifício com os agiotas. Destes, o de coração mais generosos cobrava dez por cento de juros ao mês. Havia um, endinheirado, que não emprestava por menos de vinte por cento.
 
Valdemar Sandes e Francisco César eram fregueses permanentes de rico agiota de Teresina. Lá um dia, encontraram-se os dois, numa esquina da praça Rio Branco:
 
— Cesar, amigo velho - começa Valdemar — agora vamos ter sorte. O homem viajou para o sul, muito doente, bruta cirrose no fígado. Dizem que não escapa...
 
— Qual, Valdemar, eu tenho mais fé em câncer...

A. Tito Filho: Gente e Humor. Comepi, 1981.