terça-feira, 31 de julho de 2012

Conto@otnoC


“Fernando Pessoa em flagrante delitro“ (Dedicatória de F.P. a Ophélia, 1929) - Foto de autoria desconhecida.



Por J. L. Rocha do Nascimento


UM TARÂNTULA NO NINHO DOS POETAS


Peço uma cerveja. Quente. Só tem copo descartável, diz o garçom com aura de poeta. No primeiro gole, desisto. Peço um uísque. Não tem gelo, diz o barman, agora com mais aura de garçom do que de poeta. Fazer o quê? Bebo de um gole só. Puro álcool. Outro cavalo paraguaio, eu peço. O garçom, com o olhar de reprovação e postura de proprietário do estabelecimento, diz que estou enganado, o uísque é legítimo, selado, e que se eu quiser tenho que comprar a ficha antes. Não esquenta, cavalo paraguaio é um poema que estou trabalhando.

BR-3, o nome da banda, toca Voodoo Child. O vocalista anuncia que o microfone está à disposição de todos. Os bardos fazem fila, começam a declamar. O rio é o mote. Uma poetisa com os cabelos desgrenhados agarra o microfone e eu temo pela sua sorte. Gesticulando-se de forma desordenada, tal com uma aranha peçonhenta bêbada, tentáculos para todos os lados, as pernas parecendo duas palafitas movendo-se em areia movediça. Começa a berrar: preciso urgentemente fazer um poema sobre o rio de minha cidade. Na estrofe seguinte, troca a cidade pela aldeia. O pobre do guitarrista faz malabarismos para acompanhar o ritmo ora estridente ora sonolento. Repete os mesmos versos até cansar. Ao final, joga o microfone para um dos lados e se despede diante de efusivos aplausos. Dirige-se a uma mesa, onde lhe aguarda um grupo animado de jovens, um deles escreve um poema num rolo de folhas duplas de papel higiênico. No meio do caminho ela arranca um copo de cerveja das mãos de um, que apenas olha. Mais à frente, tropeça numa garrafa jogada pelo chão, quase cai, mas consegue sentar-se num banquinho de madeira e grita: garçom, mais uma, que eu preciso escrever urgentemente um poema sobre o rio da minha cidade.

Já vou pra quarta dose. E parece que ganhei a simpatia do garçom-poeta. Mandou comprar um pacote de gelo e água de coco, mas me fez prometer que tomaria pelo menos mais 03 doses.

O tempo passa. Os poetas continuam se revezando. O tema de sempre. Tem um que canta a beleza do rio coberto de aguapés. Ainda bem que não tem nenhum ambientalista por perto. Deixem o rio em paz, resmungo.  Peço uma caneta e um pedaço de papel e escrevo:
Cavalo paraguaio
Deus!, Deus!, por que me persegues?
Por que não me dissestes que eu nasceria para a morte?
Por que me destes um coração fraco?
Por que tenho que me deitar neste leito de Procusto?

Meu Deus! Isso não é um poema, é um pedido de socorro, reflito. E o que é que o dna do cavalo tem a ver com a ira divina, com a frágil condição humana? Nunca vou ser um poeta, concluo desolado.

A oitava dose eu tomo com gelo e água de coco. O dono do bar, poeta nas horas vagas como ele mesmo diz, e dublê de garçom aos finais de semana, agora é um poço sem fundo de sorrisos para comigo. Também, conseguiu recuperar o investimento e já tá no lucro.

Lá pelas tantas, me faz um convite. Quer que escrevamos um poema a quatro mãos. Lisonjeado, agradeço e gentilmente recuso. Percebo que não gostou e insiste. Apelo para o seu instinto patrimonialista e digo-lhe que ainda tenho reserva para mais duas doses, desde que ele guarde segredo do que vou dizer e não se ofenda. Pode falar, ele diz. Não sou poeta, sou contista, digo baixinho, olhando firme nos seus olhos, certificando-me, antes, de que não há ninguém por perto. A reação foi imediata. Deu dois passos para trás, quase cai. Seus olhos cospem fogo. Por um momento pensei que ele iria acionar os seguranças ou resolver a parada com as próprias mãos. Comecei a suar frio. À minha volta, pareceu-me que todos me olhavam com ar de rejeição. Deve ser o efeito do cavalo paraguaio, pensei.

De repente, para minha surpresa, meu interlocutor interrompe-me os devaneios, dizendo: tudo bem, você é um bom cliente. Sirvo-te mais duas doses, sem gelo e sem água de coco, mas com uma condição: nunca mais me volte aqui, entendeu?

Ao final da décima dose, me sentindo um estranho no ninho, saí dali como entrei, sem ser notado, e decidido a escrever este conto.



*Texto publicado no blog Confraria Tarântula - domingo, 29 de julho de 2012.




Outras poesias


Cartuns - Gabriela





Airon

 Cau-Gomez

 Galvão


 Waldez

 Jean Galvão

André Abreu






sábado, 28 de julho de 2012

Conto@otnoC



  (foto: 1001 imagens)


Por M de Moura Filho


É UMA MANHÃ APRAZÍVEL,

pensa, enquanto, sentado no banco, observa jovens na grama.  Em pequenos grupos, ou aos pares, mostram-se viçosos.  Volta a sua atenção ao desespero de Luísa diante da chantagem de Juliana.  Não se concentra na leitura: a algazarra juvenil o incomoda.  Uma moça olha-o.  Envaidece-se.  Imagina-se ainda atraente.  Instintivamente, afaga o seu saco e o seu pau.  Velho saliente, ouve da jovenzinha.  As amigas, festivas, recebem-na, e, em seguida, todas o olham. O desprezo é evidente.  Sorri diante de sua capacidade de desnudá-la por completo. A moça que o chamou de velho saliente, por exemplo, de costas, cabelos quase a alcançar a bunda, que lhe chama a tocá-la, a abri-la.  Vez por outra, o movimento do corpo torna o seio ponteiro de uma bússola que indica o paraíso. As outras mostram-lhe as bocetas (imagina!) saradas.  Quase que todos os seios, tão acanhados, enganosamente colocam-nas como impúberes. Uma jovem, deitada de bruços na relva, absorta em uma leitura, faz-lhe deter sobre a sua bunda, linda com dois montes irmãos, pronta para ser coberta.  Lembra de Maria, aquela infeliz. Miseravelmente, depois de lhe sugar suas posses e sua virilidade, deixou-lhe apenas com HPV e a capacidade de fantasiar orgias.  Levanta-se, deixando o parque para trás.  Atravessa a avenida.  Entra no edifício que mora.  Rapidamente, adentra ao apartamento. Displicente, lança o português sobre o sofá. Faz uma trilha com os calçados, a camisa e a cueca, o que, no passado, não seria possível. Alcança a corda pressa ao parapeito da varanda. Veste o laço em seu pescoço, e, povoada a memória com bocetas, seios e bundas, salta para fora.


* Texto extraído do blog Confraria Tarântula.


Crônica

(foto: wikipédia)


DESEJO DE FÉRIAS


Para meu amigo Francisco José Duarte


Final de férias acordo como mulher parida – sinto desejos alimentícios, numa sexta-feira de julho, então.

Férias de julho é assim, não viajo – viro servente de pedreiro na minha própria casa. É que tenho acumulado manutenção da casa.  Um quadrado de cerâmica para trocar, a fechadura da porta pra jogar fora – os meninos batem, batem, batem e não adianta reclamar: troco logo a porta. Seu Wilson, essa torneira da pia, não presta mais, reclama a empregada, tá bom, nas férias conserto...  Mas o senhor não está de férias? Aí lembro,  vez em quando, sou  preferencial: consertar a caixa de som do micro, pois numa só caixa os “metais” musicais ficam prejudicados. Isso fora o telhado,  os controles infuncionáveis do Playstation dos meninos, ventiladores, a perna da cama quebrada...

Faço as contas – débitos e créditos salariais: trocar a borracha da janela do carro que o ladrão rasgou na tentativa de  me roubar o toca-CD, ou meus cd’s de rock, ou  jazz, ou meus clássicos; mandar fazer  um portão de ferro  80 x 120 para o lado lateral da casa que o ladrão avisou que ia voltar; mandar subir o muro da casa que o ladrão passou em frente e já estudou o serviço .  Vai se cortar todinho de caco de vidro, Menor! (falei pra mim, enquanto ele na dele dizia: é professor, uma cerca elétrica ficava mais seguro).  Faço as contas, contrato um pedreiro e eu mesmo ajudo: bom, quem é babá, pode também ser servente de pedreiro, ou as duas coisas ao mesmo tempo. A conta fica devedora, claro. Vai à praia, alguém pergunta. Adonde!

Mas eu estava falando dos desejos alimentícios. Acho que é a vontade de parir o último de férias, parece contradição, o trabalhador tende a “matar” o último dia de férias. E lá vô eu em busca de bacalhau, uma vontade imensa de comer bacalhau. Quem me conhece deve estar  sorrindo com seus  pensamentos cheirando a bacalhau.  Mas estou falando sério. Fui ao Teresina Shopping neste sábado em busca do peixe. Sem pressa. Monotonia:  visitei primeiro a livraria, olhei vitrines, visualizei garotas bonitas, desprezei  ignorantes endinheirados, paguei meu chopp semestral na praça de alimentação e,  finalmente, bebi o último gole do chopp farejando o sal do mar português:  “Ó mar salgado/ quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”.

Acho que bebi mais de um chopp, Fernando Pessoa que o diga. E nos labirintos de supermercado não havia só uma caixa de som (lembra da caixa de som?), mas  deuses do som: Sony, Samsung, LG, Philips – imortais sorrindo para mim coitado.  Eu só queria um pedaço de bacalhau. E noutra prateleira garrafões de vinho – sim, mas não era de Dom Bosco não, e sim os amigos da “Quinta do Morgado” reclamavam:  “– Amigo, quanto tempo, amigo!”  Era mesmo, trouxe um amigo para casa, agasalhei-o no friser da geladeira e fui preparar a torta de bacalhau.

Devo dizer que sou expert na cozinha quando se trata de torta (sempre fui um torto, pra compensar). Então, senhoras, o preço do bacalhau, da “terrinha”, em crise europeia, tá um barato. Eu comprava sardinha, mas no preço de quatro sardinhas em real de 2,50 (dez reais) sai mais saboroso comprar  uma bandejinha de bacalhau pelo mesmo preço, dona.  Então, estou aqui, já bati os ovos, a frigideira já está amanteigada, o bacalhau esfiapado, o “Quinta do Morgado” geladinho...

Final das férias, ou da história: as crianças pediram bis, e pediram mais e nessas vésperas estou parindo o último dia de férias. É claro que quando as férias acabarem eu preciso de repouso para amamentar a cria.


F wilson                

quinta-feira, 19 de julho de 2012

domingo, 15 de abril de 2012

Stones ao Vivo - 1975


(Fotos: encarte do cd.  Photoshop/Montagem: F Wilcon)


Download desse cd no blog zinhof. Senha para descompactuar o winRAR: zinhof

sábado, 14 de abril de 2012

Rock Progressivo

(Fotos: encarte do cd.  Photoshop/Montagem: F Wilcon)


Em torno desse gênero musical existe toda uma geração girando seus lp's e toda uma indústria remasterizando esse consumo cultural que marcou os anos setenta.

Quando eu achava que  as grandes bandas do rock progressivo não mais compunham,  vejo esse cd do Jethro Tull e Ian Anderson na internet,  tocando como nos velhos tempos.

* Esse cd está hospedado no blog ZINHOF. (A senha para descompactuar é: zinhof ).
 
F Wilson





domingo, 8 de abril de 2012

Frases de Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)

Em pé, da esquerda para a direita: Paulo Mendes Campos e
Sérgio Porto. Sentados: Rubem Braga (no primeiro plano),
José Carlos Oliveira, Vinicius de Moraes (ao lado de Rubem
Braga) e Fernando Sabino.
 
Foto extraída do blog Literatura na Arquibancada.

Stanislaw Ponte Preta
(Sérgio Porto)


- No Brasil as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixaram de acontecer.

- Antes só do que muito acompanhado.

- Difícil dizer o que incomoda mais, se a inteligência ostensiva ou a burrice extravasante.

- Homem que desmunheca e mulher que pisa duro não enganam nem no escuro.

- O terceiro sexo já está quase em segundo.

 - As coisas que mais contribuem para avacalhar a dignidade de um homem são, pela ordem, bofetão de mulher e tombo de bunda no chão.

 - O primeiro nome de Freud era Segismundo. Aliás, não só seu primeiro nome como também seu primeiro complexo.

 - Às vezes é melhor deixar em fogo lento do que mexer na panela.

 - Mais inútil do que um vice-presidente.

 - Mais mole que bochecha de velha.

 - Quando um amigo morre, leva um pouco da gente.

 - Nem todo rico tem carro, nem todo ronco é pigarro, nem toda tosse é catarro, nem toda mulher eu agarro.

 - Quem diz que futebol não tem lógica ou não entende de futebol ou não sabe o que é lógica.

- Pediatra sempre capricha na pronúncia quando anuncia sua especialidade, pra evitar mal-entendidos.

- O sol nasce para todos, a sombra pra quem é mais esperto.

E para terminar:

- Da minha janela vejo o pátio de um colégio e quando a campainha toca para o intervalo das aulas eu paro de trabalhar e fico olhando, como se estivesse no recreio também.

- O importante é não deixar nunca que o menino morra completamente dentro da gente. Caso contrário, ficamos velhos mais depressa.   Dizem que é por isso que os chineses, de incontestável sabedoria, conservam o hábito de soltar papagaio (ou pipa, se preferirem) mesmo depois de adultos. Não sei se é verdade, nunca fui chinês.

Blogs

(Cartoon: LEONHUMOR - trajetaamarilla-roja)

UOL.COM.BR

Árbitros precisam de ajuda, não de ofensas

Coluna no Lance! - De Vitor Birner


Reproduzio aqui a minha coluna do sábado retrasado no Lance!

Profissionalização já

“Sinistro. Muito sinistro”.

Januário de Oliveira foi muito feliz ao criar esse bordão.O narrador o utilizava durante os jogos para descrever os erros dos árbitros.

A frase de impacto era o desabafo dos milhões de brasileiros inconformados.

A ‘boa’ educação futebolística exige desconfiança a respeito do trabalho dos apitadores.

Aprendemos a homenagear suas progenitoras antes de sermos capazes de avaliar se os lances foram ou não legais.

Cansei de ver nos estádios as crianças xingando o cara do sopro e recebendo em troca sorrisos e elogios dos pais orgulhosos pelas ingênuas ofensas.

A incredulidade ultrapassa os limites da paixão nas arquibancadas.

Até os jogadores, inclusive os descompromissados com os times que defendem, e cartolas pensam o mesmo.

Também faço parte da multidão de realistas.

A quantidade de falhas no cumprimento das dezessete regras é grande demais.

Já mudou a história de Copas do Mundo, Libertadores, Campeonatos Brasileiros e estaduais.

Nenhum torneio escapou sem prejuízos.

Joseph Blatter declarou na última quinta-feira (22/03) que defende a profissionalização da arbitragem.

No ambiente onde atletas recebem fortunas e os clubes investem bastante para deixá-los na forma física ideal, a última palavra nos momentos de extremas tensão e importância não pode ficar a cargo de amadores.

Eles interferem no resultado e isso tem impacto nas futuras arrecadações das equipes e de seus funcionários.

Há interesses econômicos envolvidos além dos esportivos.

A Fifa tem que cobrar de cada afiliado a transformação da arbitragem em profissão.

Os malucos interessados na carreira precisam de acesso aos cursos de especialização promovidos por entidades sem vínculos políticos com as federações.

Somos tão injustos quanto coerentes quando exigimos do ser humano com rotina similar a nossa desempenho parecido ao do sujeito que se dedica em tempo integral ao esporte.

Outro detalhe: faz-se necessário o uso da eletrônica.

Sem ela, os avanços continuarão menores que os necessários e possíveis.


Escrito por Vitor Birner

. . .

Ontem aconteceu mais um jogo entre Vasco e Flamengo pelo Campeonato Carioca. Não mais assisto a esse clássico, não dá para entender, pois erros grosseiros da arbitragem continuam, curiosamente sempre para beneficiar o Flamengo.

sábado, 7 de abril de 2012

Comentário

(foto: Brasil 247)



BRASIL 247

"À revista Raça Brasil, o jornalista Heraldo Pereira diz que buscava retratação de Paulo Henrique Amorim e conseguiu: 'Não vou permitir que um indivíduo que faz propaganda do que é ser negro em suas rodinhas de convertidos tardios ao esquerdismo venha me dizer o que é ser negro'; leia a entrevista"... (completa no site do jornal "Brasil 247" de  07/09/2012)

.  .  .

Não é a primeira vez que o jornalista Paulo Henrique Amorim comete asneiras em seu blog "Conversa Afiada". Ano passado Amorim criticou uma charge do cartunista Solda (do blog "solda cáustico") publicada num jornal paranaense, em Curitiba, cidade onde o cartunista mora.
 
O cartunista foi despedido do jornal por influência da crítica. Crítica mal fundamentada, de leitura apressada, como fazem muitos falsos profissionais da imprensa que não buscam tempo para uma análise mais aprofundada da realidade, pois o patrocínio é o que interessa no momento.

Novamente esse jornalista da tv Record comete asneira em usar uma frase que se usava  ainda no finalzinho do século XIX: "negro de sangue branco", ou de "negro  de alma branca". 

Nessa época, O escritor Lima Barreto, autor, dentre outros livros, do clássico "Recordações do Escrivão Isaías Caminha" foi alvo dessas frases ridículas.




Uma frase para a imagem

(Foto: google)

Photoshop: F Wilson


Conto@otnoC

(Desenho: imagem subtraída da net/google)


* Por J. L.  Rocha do Nascimento

 

Risca de Giz

Fiz aquilo que pediu noutro dia, não quer ver (de perto) como ficou?
Tosa total?
Quase.
Ficou só a risca de giz.
Não vejo a hora de mostrá-la...


* Do blog Confraria Tarântula. (Postado nesse blog em 02 de abril de 2012)


 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Eric Clapton - BB King -Crossroads 2010 - Live

O melhor do Blues

(Fotos do cd. Monatagem desse blogueiro)

Esse cd do B.B. king (e convidados - na foto/recorte) é show 
I M P E R D Í V E L ! ! ! 

* Download desse cd disponível no blog  ZINHOF ( creiam, essa página, de um blogueiro lá da Croácia, a indústria fonográfica não o consegue pegá-lo (melhor, apagá-lo). Então, o original (melhor ainda), tá no amazon.com.

Muitas gracias! 

 


Cartum


Charge de Nani. Novembro de 2011


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Crônica

(Montagem: F Wilson)

Ovos de Páscoa


F Wilson (professor da rede municipal de Teresina)

Apresentadores de jornais televisivos teresinenses se sentem chocados (chocados vem de galinha choca que precisa de seus ovos) profundamente indignados com a violência, com o vandalismo, com a anarquia, com a selvageria produzida pelos professores da rede municipal.

A vítima: a Câmara. A senhora a quem o cidadão deve respeitar, obedecê-la, amá-la. E lá que vivem seus guardiões e guardiães. E dizem as más línguas que eram esses guardiãos e guardiães que estavam a suborná-la, tirando-lhe proveitos indecorosos.

Pois bem, internautas, leitores piauienses, os fatos hão de revelar a verdade através de imagens fortes. Há de se retirar as crianças (sem aula desde fevereiro quando começou a greve dos professores) da sala, da frente do computador, pois as imagens são fortes e apelativas - aliás, criança não devia nem olhar para cara de político - para não se contaminar. 

Então, caros internautas, a Câmara foi atacada. Apesar dela protestar da posição em que se encontrava, de ceder até certo ponto, e até mesmo da ameaça de chamar a polícia, os professores alvejaram seus ovos nos guardiãos da Câmara, esporraram gemas e mais gemas, quebraram cascas e mais cascas de claras férteis na tentativa de atingir o ponto "G" - do gozo da corrupção. Gemidos até houve, mas o negócio dos guardiões era, como saberão adiante, com ovos de páscoa. 
 
O flagrante: jornalistas detectaram impurezas líquidas nas cadeiras onde sentam os guardiãos; que tal denunciar mesas em posição de desalinho - onde ainda se percebe o ato de violência e o pingar viscoso e quente da gosma escorrendo do buraco desse escândalo.

Enquanto isso, caro internauta, o prefeito, em tempo de páscoa, vai doando seus ovos. E os guardiões e guardiães, para protegerem a Câmara, precisam ficar fortes.

Ovo neles!

domingo, 1 de abril de 2012

Cartum


Frank - Site Xarjincasa.

Crônica

(Cartum: Yuri Ochakovsky - Turkey)

Bares mortos

Ruy Castro

Você sente que o mundo mudou quando, ao voltar a seu bar favorito depois de longa folga, não reconhece ninguém ao redor. São outros os rostos, outra a cor dos drinques nas mesas, outra a música de fundo no ambiente, outros, até, os garçons. E, definitivamente, outros os retalhos de conversa que saem das mesas vizinhas -falam de um mundo a que você não pertence mais. Esse novo bar e esse novo mundo parecem frios e hostis. Mas é possível mudar de bar -ou de mundo.

Quem quer que tenha tido um passado em bares conheceu essa experiência. F. Scott Fitzgerald viveu-a em 1931, quando voltou a Paris depois do crack da Bolsa de Nova York, em 1929. Ao sentar-se ao balcão e ver os cacos de seu rosto no espelho, atrás das garrafas, nem ele se reconheceu. O mesmo já havia acontecido com seus antigos companheiros de farra na Paris dos anos loucos. Todos tinham pedido o chapéu antes dele, falindo ou morrendo.

Já Ernest Hemingway, antevendo essa possibilidade, nunca quis ter um pouso fixo. Dividia-se por bares de Nova York, Paris, Madri, Havana, às vezes dois em cada cidade -"Mi mojitos en La Bodeguita, mi daiquirís en La Floridita"-, e, com isso, tinha para onde correr se um bar o abandonasse. Sempre se considerou maior que esses bares, razão pela qual todos que frequentou, e não foram poucos, sacralizaram a mesa a que um dia ele se sentou.
Em minha trajetória etílica, também frequentei bares, no Rio e em São Paulo, que, sem que percebêssemos, estavam se transformando ou morrendo sob nossos pés. É feio ser o último da turma a pedir a saideira ou a conta. Melhor tentar sair mais cedo, antes que emborquem as cadeiras nas mesas, e nós com elas.

Parei de beber em 1988, aos 40. Nem cedo nem tarde, acho. Sobrevivi a todos os lugares onde bebi, mas por um triz.

 Folha.com, 30/03/2012


sábado, 31 de março de 2012

Uma frase para a imagem


Conto@otnoC

(Foto: google)

Ecos de uma infância

Por J. L. Rocha do Nascimento* 
 
As folhas secas varridas do chão levantam vôo. Um gato, rápido, dobra a esquina (vi a ponta do rabo preto) e se esconde num canto qualquer da velha casa. Minutos depois, ainda o vento. As folhagens das mangueiras tocam-se umas nas outras, se cumprimentam, fazem festa. Vem chuva aí. Por enquanto, pingos, apenas pingos, um aqui outro acolá. Na minha cabeça, um deles explode. Olho pro céu. Um clarão parte no meio a nuvem negra. No instante seguinte, o chão estremece sob meus pés. O velho vira-lata, que mal arrasta a pata, não se assusta mais. Deus ralhando com São Pedro. Mais pingo pingando. Ergo mais a cabeça. Escancaro a boca. Um deles, que eu aparo com a língua, com o impacto, se transforma em estilhaços. Doce. O crepitar no telhado. Agora sim, é chuva. Sonora. Caí do céu, escorrega pelo chão. De volta, aquela infância. O cheiro de terra molhada. Fofa, fina, revirada. O banho de bica. A bronca de mãe. O grito de pai. Noite de febre. Minha tia e sua reza forte. Na manhã seguinte, o riacho cheio.
 
 
* Do blog Confraria Tarântula


sexta-feira, 30 de março de 2012

quinta-feira, 29 de março de 2012

Tempo de Poesia 2

(Corações - F Wilson)


Intervalo (fragmento)


Um copo suicida quebra a noite
Cacos afiados refazem as horas
Passos, olhares, sedução
Só uma noite
O resto é com o destino
Uma é pouco
Duas é bom
Três e dez mais!
Nenhuma é o preço
Mais caro da festa

Burburinho
Milhões de palavras
Aguadas com cerveja
Garçom apressado
Nem peço
Sou mesa de uma boca só
Vou bebendo pensamento
acordes de guitarra
Acompanham meu pensamento
Cada momento personificado
Em hard ou progressivo setenta
(Pelo menos bloqueia o pagode
Dos jovens na mesa vizinha)
Cemitério de memórias
Toda e qualquer ação desastrosa do poeta
É perdoada pelo tempo
 
No meio do caminho
Havia uma nuvem de sonhos
Longos cabelos negros
Movimentos na neblina
O rosto adolescente eternizado na memória
Que emoção fez dobrar essa ruga
No seu rosto de mulher?
 
Intervalo de dança
Concentração tribal
Sussurros à mesa
Gestos medidos
Olhares perdidos
Nada comprometido
Amar é ficar

Podem-se enfileirar centenas de garrafas
Até dobrar a esquina do tempo
É lá onde espero uma cerveja
Para molhar o meu pensamento
Tento me convencer que o tempo
É só uma convenção humana
Subtraindo horas de vida
Só uma besta humana
Inventou duas pernas de relógio
A perseguir o tempo
Só um gênio humano
Inventou a fotografia
Capaz de parar o tempo
 
Eia, paciência...
A emoção sopra no buraco da sorte
Em busca do momento perfeito
Enfim um garçom gentil:
Só vi a garrafa
Caindo feito chuva no sertão
Destampado rápido:
Schiii...Plop!
Senti a fumacinha gelada na alma.
Um sorriso do garçom
Um brinde a nossa idade
 
Um sorriso de calcinha
Rápido no cruzar de pernas
Só indo ao banheiro
(Não é nada do que você
Deve estar pensando)
Banheiros conjugados:
Um muro separando
A humanidade em dois sexos
Do outro lado as mulheres
Falam mais
Segredam, sorriem sobre jatos
Urinam mais
“Melhor calcinha.”
“fundilho molhado”
“Mais molhada ela vai ficar.”
Assim não dá!
Grita o meu pau
Seguro-o pelo pescoço
Descontrolado põe em fuga
Cidadãos mijando porta afora
Sorrio feito tarado louco
  
Agora uma chuva
Anunciando seus trovões
Todo ano tem seu janeiro
Diferente de ser
Todo homem tem seu jeito
.........................................
Minha mente ameaça:
Neurônios-bombas, alerta geral!


Que nada, intervalo de uma cena
Uma cerveja no bar do tempo
Girando um disco do Roberto Carlos
Em 1969
69?
Uma bolha de uva explode
No céu da minha boca
Solidão é cascalho de precipício


Lembro da Lili, Liliana,
vida via dourada
Namorada apaixonado do vento
A empoeirar
Gramas de beleza pela rua
(Quem era eu a persegui-la
Na tentativa
De colher um fio perdido do seu cabelo)
Era 1975
Dez anos
Antes
Trancinha era seu cabelo de menina
Que se desfez em transa
Penugem feminina
Relva abrindo em flor
Orvalho em dia de calor

 
Depois foi Amanda
TV preto-e-branco
Canal do tempo
Tela corpo belo
Pele branca
Buceta preta
Corte aberto
Hora incerta
Sexo quente
Goza lento
Cospe dentro
“Me’spe...ra...
Ama...am...ãããã...”
Anda... sua puta!

Amanda nua
suculenta
Grito puro:
Me’spe...ra...

Outra volta
No teu corpo Amanda
Qual descompasso avança
Sobre coração emocionado?
Extremidades exterminam razão
Na superfície da tua pele
Dez pontas de dedos
Mergulham no desejo
Fagulhas que tu chamas
Quantos quilômetros de pêlos
Hei de atravessar
Quantos dias quantas noites
Para jorrar dez segundos
De água abundante
A vida solavanca dentro dessas veias
Amor, sexo, amor, sexo, amor, sexo...
Pre...
        enche
Pre...
        nha

Fornalhas
Úmidas

Côn cavo
        Con vexo
Côn cavo
        Con vexo
Côn cavo
        Con vexo
Côn c...
....... Ahhhhhh!



Amanda, onde estás?
O tempo voraz lambeu
O doce que tinhas na pele
E o perfume do desejo
Secou nas pétalas de uma flor
Socada entre tantas páginas
Dos contos pôrnos do Henry Miller
Ensurdecidos dos teus gemidos
Engessados de tantas quedas
Jogados da cama enlouquecida

.........................................................

F Wilson

Tempo de Poesia

(imagem: autoria desconhecida)


Canção de março


A palavra agora se traduz em dor
Antes, luz e caminho
Névoa ao abrir a janela
Pluma de algodão no campo.


A palavra agora se comporta em dor
Antes, sopro agradável
Vela em castiçal na sala
Jantar farto sobre a mesa de alecrim.


A palavra agora é depósito de dor
Antes, odor de menina em flor
Lençol dividido em noite de chuva
Vontade, vontade, vontade...


A palavra e a dor
Antes
Certeza
Tarde.


Emerson Araújo.


 Poema extraído do Blog Legal - Expressão em Mote 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Conto@otnoC

( Cartoon: Valdez )

O Político  [Por J.L. Rocha do Nascimento]


O POLÍTICO Perfeitamente limpo, o político subiu (seguro e sorridente) ao palanque acompanhado de sua comitiva de honra, alguns sorrisos, abraços, confidências auriculares e felicitações. A banda de música há muito já se postara, ora atenta ora sonolenta, num cantinho, à espera da senha para animar o circo. 

O político acenou com um gesto bastante conhecido (e cultivado) para a multidão que compareceu em peso na praça pública. Ajeitou o nó da gravata. Um conselheiro recomendou-lhe algo, outro ajustou a altura do microfone. Ele tossiu à maneira tradicional de início dos discursos. Uma ilustre personalidade achou que o sorriso do político não condizia com a ocasião. Sugeriu a utilização de um outro, mais plástico e envolvente. Ele ensaiou rapidamente alguns do repertório e quando optou por um que tirou de dentro do balaio, recebeu como aprovação um tapinha nas costas. Alguém perguntou sobre o efeito do desodorante, ele levantou o polegar direito. 

Tudo pronto. Começou a falar. A platéia se posicionou atenta, pacientemente. Sua voz vibrou forte e impunemente pela amplificadora. Visivelmente emocionado, prometeu melhorias. Por fim, acabou prometendo (a longo prazo) doar sua alma, os cabelos do cu e até vender a própria sogra. O povo aplaudiu leal e confiante, como sempre fora, ciente de que ele era o homem certo. Não se conteve e quis quebrar o protocolo, mas seus assessores o detiveram dizendo que seria mais vantajoso resguardar-se em suas energias para ocasiões mais futurosas. 

Foguetes rasgaram o ar. Comida e bebida foram servidas com fartura. Homens honrados e devidamente polidos, antes nunca vistos numa multidão, circulavam distribuindo sorrisos e receitas de bolo. O comício ocorria dentro do esperado. Elogios e apoios recíprocos. Promessas, muitas promessas. Um sucesso. O povo de barriga cheia, e maravilhado com aquela retórica, dava vivas, mostra de que ele mexera com os ânimos. O político, rica oratória, exibiu mais um sorriso e com ele toda a brancura de seus dentes. O indicador rijo ferindo o ar não deixava dúvida. Era o cara. 

Durante horas seguidas o povo ouviu-o com uma calma e serenidade surpreendentes. E quando o político preparou-se para, mais uma vez, apregoar uma receita de garantia de renda mínima para a população, esse mesmo povo, numa decisão e lucidez sem precedentes, subiu ao palanque, envolveu-lhe de chofre, e tirou-lhe (sem a menor piedade) aquilo que tinha de mais sórdido e hipócrita: a vida.


* Conto extraído do blog Confraria Tarântula.