quinta-feira, 31 de março de 2011

A poesia é necessária

(imagem: arquivos google)
Um poema de Salgado Maranhão


Legenda gris

Outra lua se arma
nas esquinas –
                     gris
-- rasgada a sangue
e fuligem.

Outra luz fendida
em meus afluentes
       cedilha
na noite interdita.

E gane à foz
                 do esgano
que a cidade acidula.

Ícones de cera
                    acercam
a metrópole das imagens,

no estábulo do mínimo/
máximo,

paralelos enredos
reescrevem o caos

Passam latas voadoras
passam fantoches insignes
passa a manhã de raspão

no chão que a noite rubrica
suas estrelas de sombras


Salgado Maranhão. In: A cor da palavra. Rio de Janeiro: 
Imago/Fundação Biblioteca Nacional, 2009. Págs: 263/264.


terça-feira, 29 de março de 2011

Morreu o Alencar *

(Charge: Frank)

 
* Post extraído do blog Xinelão Studio. Terça-feira, 29/03/2011.

Um dedo de prosa

(imagem: google)

Por J. L. Rocha do Nascimento

TUCO

A natureza não foi generosa. Mas a ele deu ouvidos atentos que, à distância, ajudavam-no a distinguir os diferentes sibilos da serpente. Com os olhos, sempre piscando e girando de um lado a outro, à frente, movimentava-se em silêncio. Fez-se intimo do calor do deserto, provou do veneno do escorpião, e sobreviveu. A dignidade, esta se foi cedo. Do pai, nunca soube. Da mãe, não se recorda do dia em que a viu sóbria. Mas nada disso importa agora. A vida cuidou de fechar-lhe o coração, deixando-o duro como uma rocha. Não fosse pelo ar de desamparo que, quando descuidado, denunciava o sofrimento e a amargura, não seria arriscado dizer que nunca perdia o bom humor. Alguma dor que não tivesse experimentado? Não. Por isso, viver com a corda no pescoço fazia parte do jogo, mesmo quando não houvesse um anjo louro à retaguarda.


Conto postado no blog Confraria Tarântula em 13/02/2011.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Ferreira Gullar

(Caricatura de autoria não identificada)

Fica o dito por não dito

(...)
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber

o que

precisava
dizer
ou  poderia
pelo acaso dite
e a vida

provisoriamente
permite

Ferreira Gullar. "Fica o dito por não dito",
in: Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro:
José Olympio, 2010, pp. 21-25.

sexta-feira, 25 de março de 2011

dia-a-dia

(imagem: google)


Raios e trovões

Está certo que tem caído umas chuvinhas mansas este ano por aqui, dessas que você escuta o tamborilar dos pingos no telhado e a água escorrendo pela rua. Aí dá vontade de ser menino e banhar na chuva. Num sábado desses, pra disfarçar o desejo infantil, tirei o carro da garagem e disse aproveitar a água da chuva para lavá-lo. Na tarde meio escura, ninguém na rua, mas percebi uns vizinhos me observando pelas frinchas de portas e janelas. 

Dia seguinte, domingo, caiu um toró acompanhado de raios e trovões que um temeroso como eu me guarnecia debaixo da cama. Quando a chuva manerou, fui olhar a gritaria na rua: tava lá, a vizinhança inteira, crianças, homens e mulheres lavando seus carros, motos, bicicletas, correndo pela rua numa euforia de vitória.

Fosse uma chuvinha dócil, dava pra entender o espírito infantil daquela turma. Mas em meio a raios e trovões assustadores?! Deviam ser aventureiros soberbos que desprezam cacos de raios e soam mais turbulentos que os trovões.   Ali fora eu não teria sobrevivido.

Vi na televisão cientistas alertarem a população do contato dos pés com o solo em dias de chuva, pessoas descalças ficam vulneráveis à distância de cem metros onde a descarga elétrica de duzentos mil volts de um raio poderia deixá-la carbonizada. Então nem debaixo da cama a gente pode se proteger, pois o contato da minha barriga com a cerâmica seria um desastre. Desisti do esconderijo, era muito desconfortável mesmo.  Havia o plano “B”: dentro do guarda-roupa.

“Pode sair, a chuva já acabou”, dizia Marcela, minha mulher, abrindo a porta do guarda-roupa. E acrescentava: “Vai ter de arrumar essas roupas que você tirou daí”. Fazer o quê, o importante é sobreviver. Marcela era uma pedra na cama quando dormia. Mas agora, quando o JN anuncia que pode chover durante à noite, antes de dormir fica vigilante aos meus movimentos. Mas ela termina dormindo. Se eu procuro abrigo nessas noites de chuva é porque dois passos descalços até o guarda-roupa são perigosos.

Então, quando um trovão, muito distante ainda, sacode levemente a casa, eu acordo e me enfio debaixo da barriga dela, como um pinto debaixo das asas de uma galinha. E só depois de dois ou três trovões de magnitude nove na escala Richter é que Marcela acorda e me  expulsa  do seu ventre, que ela diz não ser abrigo.

Aí o jeito é apelar para o guarda-roupa.


F Wilson
   

* Charge do dia

Charge do Lute para o jornal Hoje em Dia 25/03/2011


* Matéria copiada do Blog do Lute

quarta-feira, 23 de março de 2011

Dia-a-dia

(imagem: google)

Gravidez

Acordei de resssaca, Marcela me puxou da cama. Ela precisava chegar cedo ao hospital para fazer os exames pré-natal. Faltei ao trabalho naquela segunda-feira.

Estacionei o Fiat no acostamento de uma calçada onde uma fileira de mulheres grávidas aguardava atendimento, quando o sol subisse mais um pouco elas iam reclamar da administração, do governo, com razão. Vai pegar essa fila? – perguntei. Claro que não, o pai dela era funcionário antigo da situação.

Entramos na clínica da maternidade, cada exame em sala diferente, mas pareciam as mesmas: todas estavam abarrotadas de mulheres grávidas, agora sentadas, disciplinadas, silenciosas, acariciando suas barrigas. Esperavam com atenção a vez. As atendentes tinham cabelos oxigenados e gritava o nome da futura mãe, atrás de um balcão, ou à porta do consultório médico. Hemograma, Glicemia, Sistema ABO e Fator RH, HIV, Sorologia para rubéola, Reação para toxoplasmose, Urina, Fezes...

Olhei em volta, nenhum homem, parecia só eu assumindo a proliferação humana. Notei que as grávidas me olhavam com admiração. Será que os homens não acompanham suas mulheres em exames de perinatologia?

Deixei Marcela numa cadeira de espera e fui respirar fora da clínica. Sentei-me num banco a observar a movimentação de médicos. Eram jovens a maioria, estagiários  de plantão. Eles andavam  rápido,  eram alegres com suas pranchetas à mão. Mas havia também médicos velhos. Esses caminhavam cabisbaixo, talvez cansados do exercício da profissão. A todo instante uma ambulância despachava  grávidas à porta do hospital, algumas na iminência de parto, outras desciam da ambulância já com o bebê no colo.

Ouvi o grito de uma enfermeira, era comigo. Marcela estava sendo atendida e precisando de ajuda: alguém precisava abrir as pernas dela.


F Wilson