domingo, 1 de agosto de 2010

Cotidiano

(imagem: google)

Festa


O sol já baixava quando estacionei o gol no acostamento. Naquela sexta-feira não quis ficar com outros professores da escola na churrascaria da esquina bebendo cerveja. Entrei no prédio e esperei o elevador. A vizinha que me beliscava, agora estava séria, acompanhada do marido. Subimos em silêncio. Do panorâmico eu via a cidade revezando cores e sons à noite, prematura ainda. Muito discretamente a vizinha dobrava um olho na minha direção. Até que ela tinha umas pernas boas, mas eu pensava em outras coxas, outra pele morena, eu sentia a maciez dos lábios dela. Os jovens são idiotas mesmo.

Girei a chave do apartamento e, no quarto, liguei o ar-condicionado. Dez graus abaixo me fazia pensar melhor. Enquanto retirava os tênis fui obrigado a buscar uma vassoura na cozinha, a burra da Maria, a empregada, havia empurrado minhas chinelas lá para metade de baixo da cama. Liguei o computador e fui ao banheiro. Galera, os computados se tornam lentos porque estão infectados, então, é melhor ligar, deixa lá carregando, chame o anti-vírus, vá ler um jornal, leve-o ao banheiro para reaproveitá-lo e só depois de dez ou quinze minutos vá utilizar a máquina - dizia o experto professor de informática. A turma dizia que ele era veado. Eu não estava interessado, pensava nos cabelos e nos olhos grandes, negros, brilhantes, da Jackeline. Sentado no vaso eu lia a coluna social do jornal. Filhas de políticos importantes prometiam charmear a festa, iam arrasar, dizia o colunista. Era outro veado.

Abri uma garrafa de vinho branco e destampei as panelas da janta preparada pela Maria. Até que estava cheirando. Precisava esquentar. Bateram à porta. Era outra vizinha, uma loura. Nas mãos uma fatia de bolo e salgadinhos. É aniversário de meu marido, trouxe para você, disse ela, estendendo o bolo, vá me visitar um dia. Agradeci prometendo vê-la na primeira oportunidade e ela saiu rebolando o corpo bonito. Era meu dia, ou minha noite. Comi os salgadinhos com o vinho. Ainda era cedo, fui dormi um pouco.

De longe avistei Jackeline, a poeta disciplinada. Nossos olhares se encontraram sobre cabeças, entre desconfianças dos ricos, donos da festa. Os velhos bebiam coca-cola vigiando as filhas, e os jovens se embriagavam falando de marcas de carros. Marquei mentamente o local onde ela estava. Minha ansiedade era de uma calma inquietante. Desviei-me de convidados no caminho, esbarrei-me em taças de champanhe, de vinho ou de cachaça que obstruíam minha passagem. Uma das taças derramou sobre uma senhora quando ela brindava alguma coisa com um velho.
– Ei, seu idiota! Gritou ela.
– Desculpe, dona. E olhei o vestido encharcado, dava pra ver os bicos dos peitos dela pregados no tecido branco, molhado - estavam duros. Ela ia ter que trocar de vestido, ou ir embora.
– Vamos pra casa, ouvi o velho falar, devia ser o pai dela. – Você também, mocinha, continuou ele, apontando para Jackeline. E tirano o paletó, cobriu a mulher, cuja delicadeza impedia de me dar uma lição ali no meio da festa.
A garota olhou para mim, abanava a cabeça, desolada. Tentei remendar a situação, puxando a de lado, explicando levá-la em cinco minutinhos - diga pro seu avô!
– Não sou avô dela coisa nenhuma, rapaz, disse ele, com mãos fortes me afastando da garota.

– Você sabe quem é aquele homem? Perguntou um garçom para mim, quando a família se fora.
– Qual homem? Perguntei.
– O velho, pai da... parecia ser sua garota.
– Eu pensava ser avô dela.
Ele abanou a cabeça para mim, decepcionado. Virou as costas. Na bandeja que carregava havia deliciosos vinhos. Fui atrás. Pedi desculpas, servi-me de uma taça da bebida e perguntei.
– Quem era o velho?
– O senador Portruco.
– Que mais?
Me examinou e disse.
– Ele é uma pessoa simples, sempre votei nele. Quando chegou ele me confidenciou que queria conhecer o namorado da filha dele, perdeu sua chance, rapaz.
O garçom era um sujeito de uns cinquenta anos, notei que ele não me encarava como um perverso.
A noite é uma imagem de momentos inacabados.

Ainda não era meia-noite quando cheguei ao “Foro’s”, um clube de música dançante na zona sul de Teresina. Quando adentrei o clube e vi tantas mulheres acreditei que Jackeline já era, ela e o pai (ou avô) dela cheios de dinheiro. Pedi uma latinha de cerveja num quiosque, bati os dedos no tampo do balcão acompanhando um forrozinho, beberiquei da lata uns goles e pensei. Ali estava muito melhor do que na festa dos ricos, eu estava em casa, eu era mesmo do povo. Confiava nos meus instintos, eles dominavam minha autoconfiaça. Soprei as mãos e saí em volta do salão de dança. Como todos os salões de dança onde há sempre uma luz negra, roxa, encarnada para cobrir o horizonte noturno da humanidade.

E foi naquele momento que fui ao encontro dos braços delicados da noite, da música que espinha o sentimento do amor. Eu estava uma merda mesmo. Estendi minhas mãos convidando uma garota encostada na parede para dançar, eu queria mesmo só um corpo quente de garota.
– Não quero dançar, ela nem me olhou.
Fazer o que, ela podia estar deprimida, coisa triste não pode haver. Era feinha mesmo. Outra, mais bonita.
– Dançar, princesa?
– Sinto muito, agora não.
Fazer o que, certas garotas, abandonadas... Onde estaria Jackeline?
Dei mais uma volta na noite. Na semi-escuridão do clube havia uma fileira de mulher encostada na parede. De cara achei que concorriam a um homem ali. Tava fácil, podia escolher, mas humilhei-me a primeira:
– Dançar?
– Não, sinto.
Meti minhas mãos ofendidas nos bolsos da calça jeans. Olhei a fileira indiferente a humilhação. Elas não escutavam devido ao som da música, também parecem não enxergar, pois deviam estar pensando no pão da terra e no vinho do céu.
– Dançar, minha linda? Pedi.
– Sinto muito.
Saí para respirar, lá fora a lâmina prateada da lua esquartejava minhas mãos. De uma coisa eu podia garantir: não estava cagado.

Troquei de quiosque. Pedi mais uma latinha de skol, para descer redondo. Aí veio um conhecido idiota com namorada e me perguntou se eu ainda não tinha tirado o dedo, aludindo se nenhuma mulher se engraçara comigo. Ainda não, falei. E a namorada dele rabiscava uns olhares para mim, no que ele desconfiou e deu o fora.

O relógio já estava amanhecendo, a última banda tocava uma música cansada, bêbada. Talvez não mais correspondia à lucidez, pois uma luz interior se apagava. Restava o capítulo de uma epopéia medíocre de um poeta cego, não fosse olhos e cabelos negros anunciando mais uma manhã.

f wilson

Um comentário:

Mari disse...

Adoro ler seus contos! Tem muito da solidão humana neles!